Tangled / Entrelaçada

“My granny used to work in the shipyard’s rope factory at the beginning of the century. It wasn’t an easy job but, on the other hand, whenever a ship was finally ready at the docks, the workers had the privilege to go on board before anyone else. The rope she had made herself came down from the deck and they had the pleasure of exploring the vessel before the rich passengers embarked on it.”

I started braiding the hair of my dollies. The strings that had come from a forgotten yarn ball were divided into three tight sections of more or less the same thickness. The one on the right went over the middle one, the one on the left went under it and, while the little rag doll got a princess hairdo, I didn’t have to think about the smoke-blackened air, about mum on her knees scrubbing our front step, or about daddy’s whiskey bottle.

When the day came and I had to leave my dolly behind, my fingers left the soft and colorful wool for the rigid fiber of the hemp that came from the Philippines, which I had no idea where was, but that surely existed way beyond the green pastures of Northern Ireland. Wherever it had come from, the string wasn’t fond of being stuck in one place for too long. My agile fingers transformed it in the best ship rope, and the exotic material then embarked on yet another journey. I wondered if, as sailors who have a girlfriend in each port, the rope would also find a girl like me at every stop, fingers a-ready to tend to injuries and stroke sore muscles.

Before leaving, the rope was generous enough to let me have a taste of the adventure that was yet to come. It was my passport to respectfully climb onto the brand new ship’s deck. Then, my fingers, so used to the coarseness of the fiber, tasted the smoothness of mahogany and velvet. After our goodbyes, only one of us reluctantly returned to the factory.

I did not want to stay. While I braided the rope, I dreamed of becoming a Greek Moira and weave my destiny far, far away from there. Or a sort of Rapunzel, finally finding someone not to let my golden hair down to, but who would lend me a hand and help me climb onto the deck.  And leave behind the shipyard, the exhaustion, that future that didn’t belong to me.

But the ship blew its horn and left to never return.

Today I braid my granddaughters’ long and prematurely dyed hair. The luxurious ships have disappeared to give place to oil platforms and other static steel and iron giants, too boring to even attempt floating in salt water. The transatlantic liners don’t dock here anymore, but sometimes I shut my eyes really tight and hear the low pitch of that horn. A high pitch stab in my heart.

*

Entrelaçada

“Minha avó trabalhava na fábrica de cordas para navios do início do século. Não era um emprego fácil mas, em compensação, quando um navio ficava pronto nas docas, eles tinham o privilégio de subir a bordo primeiro. A escada de corda que ela mesma tinha feito descia do deque e os operários tinham o prazer de passear pelo barco antes de os passageiros endinheirados embarcarem.”

Comecei trançando os cabelos das minhas bonecas. Os fios de lã herdados de algum novelo esquecido eram repartidos em três mechas justas, mais ou menos da mesma grossura. A da direita passava por cima da mecha do meio, a da esquerda por baixo dela e, enquanto a bonequinha de pano ganhava penteado de princesa, eu não precisava pensar no ar enegrecido pela fumaça, na mãe esfregando de joelhos o degrau à porta da nossa casa, na garrafa de uísque do pai.

Quando chegou o dia de deixar a boneca de lado, meus dedos trocaram a lã macia e colorida pela fibra rígida do cânhamo, chegada das Filipinas, que eu não sabia onde era, mas que com certeza ia muito além das coxilhas verdes da Irlanda. Seja de onde fosse, ela não gostava de ficar muito tempo em um lugar só, porque meus dedos ágeis a transformavam na melhor corda para embarcações, e lá ia a matéria-prima exótica viajar de novo. E eu ficava imaginando se, como os marinheiros que têm uma namorada em cada porto, a corda também encontraria uma moça como eu em cada parada, dedos prontos para curar machucados e afagar músculos cansados.

Antes de partir, a corda era generosa o bastante para me dar um gostinho da viagem que estava por vir. Ela era meu passaporte para que eu respeitosamente subisse ao deque do transatlântico recém-terminado, e meus dedos tão acostumados à aspereza das fibras provavam a maciez de mognos e veludos. Depois da despedida, só uma de nós voltava relutantemente para a fábrica.

Eu não queria ficar. Enquanto trançava a corda, eu sonhava tomar ares de uma moira grega e tecer o meu próprio destino muito longe dali. Ou, em uma Rapunzel às avessas, encontrar alguém não a me jogar as tranças do alto da torre em busca de socorro, mas que que me estendesse a mão lá do alto do deque. O estaleiro, a exaustão, aquele futuro que não era meu ficando para trás.

Mas o navio tocou a buzina e partiu para nunca mais voltar.

Hoje tranço os longos fios prematuramente tingidos das filhas das minhas filhas. Os transatlânticos luxuosos deram lugar a plataformas de petróleo e outros gigantes estáticos de aço e ferro, enfadonhos demais até para se lançarem à façanha de boiar na água salgada. Os navios não passam mais por aqui, mas quando fecho os olhos bem apertados, ouço aquela buzina grave. Dor aguda no meu coração.

Home / Casa

My home is not the house or the city where I spent most of my childhood. In a silent agreement that must have been sealed on a genetic level, tiny DNA strands shaking hands, I borrow my mum’s hometown, a sleepy village encrusted in the mountains of the Brazilian countryside, to be my own.

On our endless car journeys to visit my grandparents on the weekends or school holidays, the adventure already started on the road: the dark mountains were sleeping giants, the tip of their noses touching the Southern Cross; the fields were covered by orange trees and then by coffee plantations, as if they knew their right order on the breakfast menu; the road signs pointed to strange cities maybe bathed in sunlight and gold and jewels in my imagination, but most probably just covered in dust. But I would take dust any day over the greyness of the city we had left behind.

A road trip is not an option anymore, but one of the advantages of being genetically wired to my home is that I don’t have to board a plane to visit it again. My home and I have a deal. I may not get to choose when I go back, but on the other hand, my home appears before me with the novelty of a sunny butterfly on a cold winter’s day. My ticket is a cattle guard, a crooked branch on a tree, a worn-off gate forgotten on a fence or a wooden bridge over a stream.

And then the mountains of County Down turn into the sea of hills of my childhood, and the basket of eggs gives room to guava trees, sugarcane and waterfalls. The potato bread morphs into tapioca flour and migrates from the smoky griddle to the clay wood burning stove in my grandma’s red tiled kitchen. The watery but well-intentioned coffee mans up and rises dark and strong from the kettle to greet me, seated across the table in my flannel pyjamas. My favourite book is by my side.

My grandpa has just arrived from the bakery with biscuits still hot from the oven, which are quickly added to the carb cornucopia on the kitchen table. His next passenger is already waiting for a ride in his taxi. My grandma and my mum come into the kitchen, the nail varnish still drying out from the manicure session next door. My sister and my dad are waiting for me to finally change clothes and go to the church square, on a stroll full of ice cream potential. Chico, the parrot, yells the latest curse word he had learned from my grandma that week.

The sun comes through the window and I take a sip of my coffee. I am home.

*

Casa

Meu lar não é a casa, nem a cidade onde passei a maior parte da minha infância. Em um acordo silencioso que deve ter sido selado em nível genético, os filamentos minúsculos de DNA apertando as mãos, eu pego emprestado a terra natal da minha mãe, uma cidadezinha pacata encrustada nas montanhas de Minas, como se fosse minha.

Nas nossas viagens de carro intermináveis para visitar nossos avós nos finais de semana ou nas férias da escola, a aventura já começava na estrada: as montanhas escuras eram gigantes tirando uma soneca, a ponta dos seus narizes enormes tocando o Cruzeiro do Sul; os campos eram cobertos por pés de laranja e então de plantações de café, como se até eles soubessem sua ordem certinha no café da manhã; as placas apontavam em direção a cidades estranhas talvez banhadas de sol e ouro e pedras preciosas na minha imaginação, mas provavelmente cobertas de poeira mesmo. Mas, pensando bem, eu escolheria a poeira mil vezes em vez do cinza da cidade que a gente deixava para trás.

Ir para lá carro já não é mais uma opção, mas uma das vantagens de ser geneticamente ligada à minha casa é que eu nem preciso entrar num avião para fazer uma visita. Meu lar e eu temos um trato. Tudo bem que eu não posso escolher exatamente quando quero voltar mas, por outro lado, meu lar aparece para mim  com a novidade de uma borboleta ensolarada em um dia frio de inverno. Minha passagem é um mata-burro, um galho retorcido de árvore, uma porteira gasta e esquecida na cerca, uma ponte de madeira sobre um riacho.

E então as montanhas de County Down se transformam nos mares de morros da minha infância, e o verde daqui dá espaço a goiabeiras, canaviais e cachoeiras. O pão de batata irlandês vira pão de queijo e migra da panela de ferro que eles usam nas lareiras daqui para o fogão a lenha da cozinha de piso vermelho da minha avó. O café meio aguado mais bem-intencionado encontra coragem e sai escuro e forte da cafeteira para dar bom-dia para mim, sentada do outro lado da mesa, ainda no meu pijama de flanela. Meu livro favorito está ao meu lado.

Meu avô acabou de chegar da padaria com biscoitos de polvilho ainda quentinhos do forno, que se juntam rapidamente à cornucópia de carboidratos sobre a mesa da cozinha. Seu próximo passageiro já está à espera dele no táxi. Minha avó e minha mãe entram na cozinha, o esmalte ainda secando da sessão-manicure na vizinha. Minha irmã e meu pai estão esperando até que eu finalmente troque de roupa para irmos para a pracinha da igreja, em um passeio repleto de potencial sorvetístico. Chico, o papagaio, berra o palavrão mais recente que aprendeu naquela semana com a minha avó.

O sol entra pela janela e tomo um gole de café. E estou em casa.