Growing pains / Crescer é um porre

I was waiting at the door, looking forward to finally go home and get a break after a full day, covered in paint and eager for some chocolate pudding. My ride was supposed to pick me up at three o’clock on the dot, but there was no sign of it yet. I was already cursing the gods for letting me get stuck there and almost losing hope, but then he came. His arms and legs were covered in as many colours as my own, but he arrived bearing a triumphant smile on his face and a bunch of flowers in his hands. He gave me the bouquet and he said that he loved me. Well, his dad said he did. I accepted the flowers with a polite smile and did the only sensible at that moment: stomped on them. My mum wished she had arrived even later to pick me up. I was five.

With that kind of record, it is amazing I even got to have a first kiss almost ten years later. It is not like I wasn’t interested in boys, but there seemed to be so much more to the world than getting all dolled up and sighing at the sight of smelly boys playing soccer. When my class went on a day trip to an amusement park, I couldn’t believe the older guy from the 9th grade came to talk to me. We had different schedules at school, which turned him into an exotic and almost mythical creature, a winged unicorn who managed to wake up early enough to go (or fly) to class. Yes, his kiss made my head spin, but loopings aside, I would gladly have gone for an extra ride on the rollercoaster instead.

After what became known as the “flower-stomping incident”, my mum only got more anxious about her dream of filling each extra seat at her dining table for six.  And when she heard her tapestry teacher had a son who was a total hunk, nothing could stop her. She made him set up a date to come over to meet me – and almost knitted him a thank you card. I was 14, he was 21, a match made in heaven maybe in Alabama in the 30’s, but now it was too late and my mum was on full Jane Austen mode.

When the much awaited day arrived, he didn’t bring me flowers (news had travelled fast in the past 9 years), but was kind enough to say hi to my family – that is, until a very quiet hurricane swept the house and made everybody disappear. Everyone was gone, except for the cat. Dorothy, you’re not in Kansas anymore.

While the guy went on and on about the incredible grown-up world and its mind-blowing activities, such as driving around in real cars and listening to dodgy dance music, I held my cat on my lap, as a little kid who won’t let go of her teddy bear. The feline had just been upgraded to a mix of hairy force field and moral police. That cat should have been proud to be a poster-cat for innocence. That cat should have relished the importance of such a cause. That cat should have eaten less for dinner.

That cat barfed on my date.

“You have to watch what she eats”, he said, and finally left.

I made a sad face to my mum, but almost high-fived the much relieved kitty. It wasn’t anybody’s fault. I guess I just wasn’t ready to grow up.

*

Crescer é um porre

Eu estava esperando no portão. Não via a hora de ir para a casa descansar um pouco depois de um dia de cão, coberta de tinta e morta de vontade de comer um Danette. Minha carona disse que ia me pegar às três da tarde em ponto, mas até ali, nada. Eu já estava xingando os deuses por me deixarem plantada ali e quase perdendo as esperanças, mas então ele veio. Seus braços e pernas estavam cobertos por tantas cores quanto os meus, mas ele carregava um sorriso triunfante nos lábios e um buquê de flores nas mãos. Ele me deu o buquê e disse que me amava. Bom, na verdade, o pai dele me disse que ele estava apaixonado por mim. Aceitei as flores com um sorriso educado e fiz a única coisa decente naquela situação: pisoteei o buquê. Naquela hora, minha mãe queria mais era ter chegado ainda mais tarde para me buscar. Eu tinha cinco anos.

Com esse tipo de histórico, é incrível que eu tenha conseguido beijar um cara pela primeira vez quase dez anos depois. Não é que não estivesse interessada nos meninos, mas parecia que o mundo era muito mais do que se embonecar toda e ficar suspirando ao ver uns moleques suados jogando bola. Mas, quando minha escola foi em uma excursão ao Playcenter, eu nem acreditei quando o menino da oitava série veio falar comigo.  Eu estudava à tarde, ele, pela manhã, o que fazia do cara uma criatura exótica, quase mítica, praticamente um unicórnio alado que conseguia acordar cedo o suficiente para ir (ou voar) para a aula. Tudo bem, o beijo dele fez a minha cabeça girar mas, loopings à parte, eu bem que preferiria ter dado mais uma volta na montanha-russa em vez de ficar com ele.

Depois do que ficou conhecido como “o incidente do buquê”, minha mãe ficou cada mais vez ansiosa, e louca para tornar realidade seu sonho de preencher os lugares na mesa de jantar para oito pessoas. E quando ela ouviu falar que sua professora de arraiolo tinha um filho que era “um gato”, aí é que ninguém a segurava mesmo. Ela fez o cara marcar um dia para vir à nossa casa me ver – e quase tricotou um cartão de agradecimento para ele. Eu tinha 14 anos, ele, 21 – um par perfeito talvez no Alabama dos anos 30, mas agora era tarde demais e minha mãe já estava se achando a Jane Austen.

Quando o dia tão aguardado finalmente chegou, ele não trouxe flores para mim (pelo jeito a notícia tinha se espalhado naqueles últimos nove anos), mas foi gentil o bastante para cumprimentar a minha família – isso é, até um furacão silencioso passar pela casa e fazer todo mundo desparecer. Todo mundo sumiu, exceto o nosso gatinho de estimação. “Dorothy, você não está mais no Kansas.”

Enquanto o cara não parava de falar sobre o incrível mundo dos adultos e atividades ainda mais animais, tipo dirigir pela Avenida Goiás ouvindo dance music de qualidade duvidosa, fiquei segurando o gatinho no colo, como uma menina que não quer largar do ursinho de pelúcia. O felino tinha acabado de receber um upgrade e virado uma mistura de campo de força peludo e polícia da moral e bons costumes. O gato deveria ter ficado orgulhoso de ser um gato-propaganda da inocência. O gato deveria ter saboreado a importância daquela causa. O gato deveria ter comido menos na janta.

O gato vomitou no cara.

– É bom ver o que esse gato come, né? – ele disse, e finalmente foi embora.

Fiz cara de triste para a minha mãe, mas quase pedi um high-five para o gatinho, nós dois aliviados. Não tinha sido culpa de ninguém. É que eu ainda não estava pronta para crescer.

 

The circle / O círculo

Come, my dear friend. Don’t be afraid. You don’t need a warning in a dream or a baptism of blood to join our circle. Just a story to tell.

You may hold hands if you wish.

You may also save mandrakes, bezoars and rosemary for another full moon, for this is not an incantation. We are gathered here today to summon them to life.

The order is not important, as words are not greedy. They have to power to sense who needs to come out first. A woman who got married on a Thursday and never played the piano again. A mother eager to close her eyes after the funeral of her only daughter.  A grandpa waiting to marmalade toast with his grandson, for childhood ends on a blink of a paragraph. They all need to speak, and now. So read.

They had a taste of life on the paper, but only feel truly alive when rolling off the tongue.  Many dread waking up from their dream of cellulose by our bittersweet kiss, being forced to go through all that again. But there is nothing like the feel of ink flowing through your veins.

Even if only for a few minutes, they leave dusty drawers and expertly locked chests tucked away somewhere in the mind and live among us. Happy characters pray every detail will play out itself exactly like the last time. The less fortunate ones hope fate materialises, even if in the shape of a comma, and takes pity on their sad endings.

They are here until words are no longer necessary, until all that needed to be said has been told. They can sense the thoughtfully carved sentences, the climax that will make their journey be remembered. And then it comes. Looks don’t mean a thing. It is so tiny one could barely notice it and its great power to send them back. They want to linger in that special moment when no one else’s story mattered, but only theirs. But it is too late now. It’s here. Full stop.

*

O círculo

Venha, meu amigo. Não tenha medo. Você não precisa de um aviso vindo num sonho, nem de um batismo de sangue para se juntar ao nosso círculo. Apenas uma história para contar.

Vocês podem dar as mãos, se quiserem.

Você também pode guardar mandrágoras, bezoares e o alecrim para outra lua cheia, pois isso aqui não é um encantamento. Estamos reunidos para trazê-los de volta à vida.

A ordem não importa, já que palavras não são gananciosas. Elas têm o poder de sentir quem precisa vir primeiro. Uma mulher que se casou numa quinta-feira e nunca mais tocou piano. Uma mãe ansiosa para fechar os olhos depois do enterro da única filha. Um avô esperando para passar geleia na torrada para o neto, já que a infância pode acabar num piscar de parágrafo. Todos eles precisam falar, e tem que ser agora. Então, leia.

Eles já sentiram o gosto da vida no papel, mas só se sentem realmente vivos ao escorregarem pela nossa língua. Muitos temem acordar de seu sonho de celulose com o nosso beijo agridoce e serem forçados a passar por tudo aquilo de novo. Mas não há nada como a sensação da tinta pulsando nas veias.

Mesmo que apenas por alguns minutos, eles deixam gavetas empoeiradas e baús trancados em algum lugar da mente, e vivem entre nós. Personagens felizes rezam para que cada detalhe seja reproduzido exatamente como da última vez. Os menos afortunados pedem que a esperança se materialize, mesmo que em forma de vírgula, e se compadeça de seus finais infelizes.

Os personagens ficam entre nós até que as palavras não são mais necessárias, até que tudo que tinha que ser contado já foi dito. Eles conseguem sentir as frases cuidadosamente entalhadas, o clímax que tornará suas jornadas inesquecíveis. E então ele vem. Aparência não é nada. Ele é tão pequeno que passa quase despercebido, assim como seu grande poder de mandar todos de volta. Eles querem ficar para sempre naquele momento tão especial, quando a história de mais ninguém importava, apenas a deles. Mas agora é tarde demais. Ele chegou. Ponto final.

The whistle / O apito

That’s all we ever wanted to hear.  A whistle from an old steam engine which had crossed that sleepy village for the last time in the 60’s. As most railways in Brazil, the tracks had been ripped from my mum’s hometown, leaving a dusty and forgotten station behind.

Now the station was a warehouse for sacks of coffee beans, or something boring like onions. If at least they could have said it was garlic, there would be some potential vampire-hunting-related excitement going on, but no. But then again, for big city kids like us, nothing was quite what it seemed to be. Away from our grey fortress of solitude of high rises, holidays with our grandparents were our big chance to find that maybe there were jewellery thieves hiding in the abandoned movie theatre, that a tiny spring was actually the fountain of youth, or that a baby’s picture in the graveyard had blinked once. Really fast.

So we simply had to figure out the so-called “Train station mystery”. According to the tale (or a cousin, but it didn’t matter), the train driver would come back from the afterlife every now and then and blow the whistle, his love for the big iron centipede still stuck to his soul like coal dust from the furnace. He needed to hear it just one more time and then embark on his final trip for good.

As the oldest cousin and expedition leader, I needed to make sure all eight of us were always together, that we had supplies (the train station was three blocks away from my grandma’s house, but you never know) and, of course, that our parents would never find out what we were up to. We didn’t make a disgusting blood or spit pact, but solemnly promised to never, ever tell anything, even if our grandma’s famous corn cake were to be forced down our throats, as it so frequently was.

Amazingly enough, nobody followed us to the station, and the passers-by didn’t even notice our expert crew sticking ears to the ground to see if the train was finally coming. All the tall indigo doors were either boarded up or latched with a big rusty lock, but one of them had a small hole. Maybe if we were strong enough to rip off one the boards, there would be room to finally get into the station.

But we weren’t. Rumours were starting among the troops of how that expedition would have never been successful anyway without a big rock or a hair pin to pick the lock. There were also talks of mutiny in the ranks, as my sister was only 18 months younger than me, and perfectly eligible for the position. Plus, it was almost lunch time. A decision had to be made, and quickly.

As a general so often does when it comes to war, I had to sacrifice my infantry, otherwise known as the youngest cousin. Under kicks and shouts of protest, we shoved him through the small hole on the door, along with spider webs and onion peels (please say no more!) and into an otherworldly scene: maybe women wearing white gloves, having their posh luggage being pushed around by less fortunate boys? Elegant men in bowler hats reading news about the end of the war? Somebody shouting: “All on board!”? And, standing at his window in the first wagon, the train driver. First casually curling up his moustache, and then eyes bulging, a handkerchief black with coal dust to wipe the sweat on his brow. Busted! And he hadn’t even blown the whistle yet.

The poor boy came rushing out and ran away, still trying to get rid of the spider webs on his hair, crying and calling for his mum. We allowed some minutes for him to recover before the official interrogation, but he had never opened his eyes.

*

O apito

Era só o que a gente queria ouvir. O apito de uma velha maria-fumaça que tinha cruzado aquele vilarejo preguiçoso pela última vez nos anos 60. Como a maioria das estradas de ferro no Brasil, os trilhos tinham sido arrancados da cidade natal da minha mãe, deixando para trás uma estação poeirenta e esquecida.

Agora a estação era um tipo de armazém para sacas de café ou de alguma coisa sem graça como cebolas. Se pelo menos tivessem dito que era alho, haveria potencial para algum tipo de caçada a vampiros, mas não. Mas, pensando bem, para crianças da cidade grande como gente, nada parecia ser o que era. Longe da nossa fortaleza cinza da solidão de arranha-céus, as férias na casa da minha avó eram a nossa grande chance de talvez encontrar ladrões escondidos no cinema abandonado, descobrir que uma biquinha de nada na verdade era a fonte de juventude, ou que a foto daquele nenê no cemitério tinha piscado uma vez. Bem rápido.

Então a gente simplesmente precisava resolver o famoso “Mistério da Estação de Trem”. De acordo com a lenda (ou um primo, mas não fazia a menor diferença), o maquinista voltava do além de vez em quando e tocava o apito do trem, seu amor pela grande centopeia de aço ainda impregnado em sua alma como o pó da fornalha. Ele só precisava ouvir o apito mais uma vez e então partir em sua última viagem para sempre.

Como prima mais velha e líder da expedição, eu precisava garantir que nós oito estivéssemos sempre juntos, que tínhamos suprimentos (a estação só ficava a uns três quarteirões da casa da minha avó, mas nunca se sabe) e, é claro, que nossos pais nunca descobrissem o que a gente estava aprontando. Não fizemos nenhum pacto nojento de sangue nem de cuspe, mas juramos solenemente jamais nunca contar nada para ninguém, mesmo se o famoso bolo de fubá da avó Didi nos fosse forçado goela abaixo – como às vezes era mesmo.

O mais incrível é que ninguém nos seguiu até a estação, nem ninguém na rua notou nossa equipe de especialistas de ouvido grudado no chão para ver se o trem estava finalmente chegando. Todas as portas compridas e estreitas de azul índigo estavam bloqueadas com tábuas ou então trancadas com um cadeado gigante e enferrujado, mas uma delas tinha um buraco. Talvez, se tivéssemos força para arrancar uma das tábuas, o buraco ficaria grande o bastante para a gente finalmente entrar na estação.

Mas que força, nada! E boatos já tinham começado a se espalhar por entre as tropas sobre como aquela expedição jamais seria bem-sucedida sem uma pedra de tamanho decente ou um grampo para abrir o cadeado, como nos filmes. Também começaram rumores de motim em todos os flancos: afinal, minha irmã era só um ano e meio mais nova que eu e poderia perfeitamente assumir a minha posição. Além do mais, era quase hora do almoço. Uma decisão tinha que ser tomada, e rápido.

E como um general é obrigado a fazer tantas vezes na guerra, tive que sacrificar a minha infantaria, também conhecida como o primo mais novo. Sob chutes e gritos de protesto, enfiamos o menino pelo buraquinho na porta, junto com teias de aranha e cascas de cebola e direto para uma cena do outro mundo: talvez mulheres de luvas brancas, com sua bagagem chique sendo empurrada por meninos menos afortunados? Homens elegantes de chapéu coco lendo as notícias sobre o fim da guerra? Alguém gritando “Todos a bordo!”? E, de pé à janela da maria-fumaça, o maquinista. Primeiro arrebitando as pontinhas do bigode como quem não quer nada, e então arregalando os olhos, um lenço preto de carvão enxugando o suor da testa. Pego no flagra! E ele ainda nem tinha tocado o apito!

O coitado do menino voltou num piscar de olhos e saiu correndo, ainda tentando se livrar das teias de aranha no cabelo, chorando e chamando a mãe. Esperamos um pouco antes de começar o interrogatório oficial mas, lá dentro da estação, ele nunca tinha nem aberto os olhos.