To catch a crab / Como pegar caranguejo

Recently arrived from the mangrove, the crabs were still covered in dirt. Their legs and claws, used to the slimy comfort of the mud, now struggled to paddle on the tiles of the apartment’s veranda.

My friend’s dad, a bald Sicilian, didn’t throw them straight into a cauldron of boiling water. Not yet.

One by one, and without showing ant concern or respect for their claws, he pulled the lid off of their chitin exoskeleton heads.

While they insisted on walking around, sliding, disorientated and now mutilated, slime oozing out, people talked about lunch, but all I could think about was grey brain matter and the leggy machines from War of the Worlds.

*

Como pegar caranguejo

Recém-chegados do mangue, os caranguejos ainda estavam cobertos de terra. Suas pernas e pinças, acostumadas ao conforto pegajoso da lama, agora se esforçavam para patinar sobre o piso frio da varanda do apartamento.

O pai da minha amiga, um siciliano careca, não jogou todos em um caldeirão de água fervente. Ainda não.

Um por um, e sem demonstrar nenhuma preocupação nem respeito pelas pinças, ele arrancou a tampa da cabeça de seus exoesqueletos de queratina.

Enquanto eles insistiam em andar para lá e para cá, desorientados e, agora, mutilados, o visco escorrendo, as pessoas conversavam sobre o almoço, mas eu só conseguia pensar em massa cinzenta e nas máquinas de pernas compridas em A Guerra dos Mundos.

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Where the bad jokes go / Para onde vão as piadas ruins

“Open mic night” at the Crescent Arts Centre, 9:30 pm.

The show is about to start. I would say “no pressure”, but everyone knows that a good joke lives forever.

The successful stand-up comedian will raise a glass to his own brilliance and maybe even score a groupie or two afterwards, but while he secretly wipes the brow and relief with a handkerchief, the good joke starts a journey of a lifetime. It soars above the laughter like a hot air balloon and, as an actor who gets his own star on the Hollywood Walk of Fame, it prepares itself for posterity, for the good joke is never told only once. For moral reasons, maybe it should show some kind of gratitude for its creator, the “joke teller zero”, but it doesn’t matter anymore. The good joke doesn’t linger in the past, it lives for the future, for the next person who will pronounce its prelude to shine once more: “Have you ever heard the one about the…?”.

That is, if we hear a good joke tonight.

For the bad jokes, the microphone is a cliff. The fall is just long enough to make them feel sorry for themselves. They land flat on the stage, for their fate is much different from the good jokes’ comic heaven. The bad jokes are sent off to a very grumpy limbo, where clichés meet their quintuplets for the hundredth time, priests, ministers and rabbis travel coach on a plane that never lands and bad timing never quite knows when to get the hell out of there. With time, the cringe factor wears off, but the bad jokes are branded with the unfunny scarlet letter. The bad joke also lives forever, but for the wrong reasons.

That is, unless a miracle happens.

Maybe that guy’s boss didn’t make it to work today, or that girl finally passed that stupid driving test, or someone simply couldn’t be bothered to think of a better reason for the chicken to cross the road, and it happens: the bad joke gets a laugh. Laughter loves company (except for the evil laugh) and soon the theatre is bursting with them. The bad joke, its faith renewed, bounces off the stage and takes off on its own flight. It doesn’t mind taking a minister or a chicken or two along for the ride, as the bad joke does not seek fame or fortune like its hilarious cousin. For now the bad joke shall accept itself just the way it is. With a smile.

*

Para onde vão as piadas ruins

“Noite do microfone aberto” no Crescent Arts Centre, 21h30.

O show está prestes a começar. Eu até diria para o cara relaxar, mas todo mundo sabe que uma boa piada dura para sempre.

O comediante bem-sucedido vai fazer um brinde à sua própria inteligência e até ganhar uma ou outra admiradora depois do show, mas enquanto ele enxuga a testa e o alívio em segredo, a boa piada começa a viagem mais alucinante de sua vida. Ela sobe e plana sobre as risadas como um balão de ar quente. Como um ator que ganha a própria estrela na Calçada da Fama em Hollywood, ela se prepara para a posteridade, já que uma boa piada não é contada apenas uma única vez. Por razões morais, talvez ela devesse demonstrar algum tipo de gratidão ao seu criador, o desbravador de palcos, mas agora isso já não importa. A boa piada não se prende ao passado; ela vive no futuro, e anseia pela próxima pessoa que pronunciará seu prelúdio para brilhar mais uma vez: “Você já ouviu aquela do…?”

Isto é, se o cara contar uma piada boa esta noite.

Para as piadas ruins, o microfone é um penhasco. A queda é exatamente comprida o bastante para que elas sintam pena delas mesmas. Elas aterrissam de barrigada no palco, já que seu destino é muito diferente daquele do céu cômico das piadas boas. As piadas ruins são mandadas para um limbo muito mal-humorado, onde clichês encontram seus quadrigêmeos pela enésima vez, o padre, o papagaio e a sogra viajam de classe econômica num voo que nunca chega a lugar algum, e o final contado fora de hora nunca sabe muito bem quando ir embora dali. Com o tempo, o mal-estar passa, mas as piadas ruins são marcadas para sempre com uma letra escarlate bem sem graça. A piada ruim também dura para sempre, mas pelos motivos errados.

Isto é, a não ser que um milagre aconteça.

Talvez o chefe daquele cara não tenha ido trabalhar hoje, ou aquela menina finalmente passou na prova, ou alguém simplesmente não podia se dar ao trabalho de pensar numa explicação melhor para o cachorro entrar na igreja, e então acontece: a piada ruim ganha uma risada. O riso adora companhia (com exceção da risada malvada), e logo o teatro vem abaixo. A piada ruim, com sua fé renovada, quica do palco e decola em seu próprio voo. Ela não se importa em levar um padre ou uma sogra ou duas na viagem já que, ao contrário de sua prima sensacional, a piada ruim não busca fama nem fortuna. Por enquanto, a piada ruim vai se aceitar do jeito que é. E com um sorriso no rosto.

Home / Casa

My home is not the house or the city where I spent most of my childhood. In a silent agreement that must have been sealed on a genetic level, tiny DNA strands shaking hands, I borrow my mum’s hometown, a sleepy village encrusted in the mountains of the Brazilian countryside, to be my own.

On our endless car journeys to visit my grandparents on the weekends or school holidays, the adventure already started on the road: the dark mountains were sleeping giants, the tip of their noses touching the Southern Cross; the fields were covered by orange trees and then by coffee plantations, as if they knew their right order on the breakfast menu; the road signs pointed to strange cities maybe bathed in sunlight and gold and jewels in my imagination, but most probably just covered in dust. But I would take dust any day over the greyness of the city we had left behind.

A road trip is not an option anymore, but one of the advantages of being genetically wired to my home is that I don’t have to board a plane to visit it again. My home and I have a deal. I may not get to choose when I go back, but on the other hand, my home appears before me with the novelty of a sunny butterfly on a cold winter’s day. My ticket is a cattle guard, a crooked branch on a tree, a worn-off gate forgotten on a fence or a wooden bridge over a stream.

And then the mountains of County Down turn into the sea of hills of my childhood, and the basket of eggs gives room to guava trees, sugarcane and waterfalls. The potato bread morphs into tapioca flour and migrates from the smoky griddle to the clay wood burning stove in my grandma’s red tiled kitchen. The watery but well-intentioned coffee mans up and rises dark and strong from the kettle to greet me, seated across the table in my flannel pyjamas. My favourite book is by my side.

My grandpa has just arrived from the bakery with biscuits still hot from the oven, which are quickly added to the carb cornucopia on the kitchen table. His next passenger is already waiting for a ride in his taxi. My grandma and my mum come into the kitchen, the nail varnish still drying out from the manicure session next door. My sister and my dad are waiting for me to finally change clothes and go to the church square, on a stroll full of ice cream potential. Chico, the parrot, yells the latest curse word he had learned from my grandma that week.

The sun comes through the window and I take a sip of my coffee. I am home.

*

Casa

Meu lar não é a casa, nem a cidade onde passei a maior parte da minha infância. Em um acordo silencioso que deve ter sido selado em nível genético, os filamentos minúsculos de DNA apertando as mãos, eu pego emprestado a terra natal da minha mãe, uma cidadezinha pacata encrustada nas montanhas de Minas, como se fosse minha.

Nas nossas viagens de carro intermináveis para visitar nossos avós nos finais de semana ou nas férias da escola, a aventura já começava na estrada: as montanhas escuras eram gigantes tirando uma soneca, a ponta dos seus narizes enormes tocando o Cruzeiro do Sul; os campos eram cobertos por pés de laranja e então de plantações de café, como se até eles soubessem sua ordem certinha no café da manhã; as placas apontavam em direção a cidades estranhas talvez banhadas de sol e ouro e pedras preciosas na minha imaginação, mas provavelmente cobertas de poeira mesmo. Mas, pensando bem, eu escolheria a poeira mil vezes em vez do cinza da cidade que a gente deixava para trás.

Ir para lá carro já não é mais uma opção, mas uma das vantagens de ser geneticamente ligada à minha casa é que eu nem preciso entrar num avião para fazer uma visita. Meu lar e eu temos um trato. Tudo bem que eu não posso escolher exatamente quando quero voltar mas, por outro lado, meu lar aparece para mim  com a novidade de uma borboleta ensolarada em um dia frio de inverno. Minha passagem é um mata-burro, um galho retorcido de árvore, uma porteira gasta e esquecida na cerca, uma ponte de madeira sobre um riacho.

E então as montanhas de County Down se transformam nos mares de morros da minha infância, e o verde daqui dá espaço a goiabeiras, canaviais e cachoeiras. O pão de batata irlandês vira pão de queijo e migra da panela de ferro que eles usam nas lareiras daqui para o fogão a lenha da cozinha de piso vermelho da minha avó. O café meio aguado mais bem-intencionado encontra coragem e sai escuro e forte da cafeteira para dar bom-dia para mim, sentada do outro lado da mesa, ainda no meu pijama de flanela. Meu livro favorito está ao meu lado.

Meu avô acabou de chegar da padaria com biscoitos de polvilho ainda quentinhos do forno, que se juntam rapidamente à cornucópia de carboidratos sobre a mesa da cozinha. Seu próximo passageiro já está à espera dele no táxi. Minha avó e minha mãe entram na cozinha, o esmalte ainda secando da sessão-manicure na vizinha. Minha irmã e meu pai estão esperando até que eu finalmente troque de roupa para irmos para a pracinha da igreja, em um passeio repleto de potencial sorvetístico. Chico, o papagaio, berra o palavrão mais recente que aprendeu naquela semana com a minha avó.

O sol entra pela janela e tomo um gole de café. E estou em casa.

Growing pains / Crescer é um porre

I was waiting at the door, looking forward to finally go home and get a break after a full day, covered in paint and eager for some chocolate pudding. My ride was supposed to pick me up at three o’clock on the dot, but there was no sign of it yet. I was already cursing the gods for letting me get stuck there and almost losing hope, but then he came. His arms and legs were covered in as many colours as my own, but he arrived bearing a triumphant smile on his face and a bunch of flowers in his hands. He gave me the bouquet and he said that he loved me. Well, his dad said he did. I accepted the flowers with a polite smile and did the only sensible at that moment: stomped on them. My mum wished she had arrived even later to pick me up. I was five.

With that kind of record, it is amazing I even got to have a first kiss almost ten years later. It is not like I wasn’t interested in boys, but there seemed to be so much more to the world than getting all dolled up and sighing at the sight of smelly boys playing soccer. When my class went on a day trip to an amusement park, I couldn’t believe the older guy from the 9th grade came to talk to me. We had different schedules at school, which turned him into an exotic and almost mythical creature, a winged unicorn who managed to wake up early enough to go (or fly) to class. Yes, his kiss made my head spin, but loopings aside, I would gladly have gone for an extra ride on the rollercoaster instead.

After what became known as the “flower-stomping incident”, my mum only got more anxious about her dream of filling each extra seat at her dining table for six.  And when she heard her tapestry teacher had a son who was a total hunk, nothing could stop her. She made him set up a date to come over to meet me – and almost knitted him a thank you card. I was 14, he was 21, a match made in heaven maybe in Alabama in the 30’s, but now it was too late and my mum was on full Jane Austen mode.

When the much awaited day arrived, he didn’t bring me flowers (news had travelled fast in the past 9 years), but was kind enough to say hi to my family – that is, until a very quiet hurricane swept the house and made everybody disappear. Everyone was gone, except for the cat. Dorothy, you’re not in Kansas anymore.

While the guy went on and on about the incredible grown-up world and its mind-blowing activities, such as driving around in real cars and listening to dodgy dance music, I held my cat on my lap, as a little kid who won’t let go of her teddy bear. The feline had just been upgraded to a mix of hairy force field and moral police. That cat should have been proud to be a poster-cat for innocence. That cat should have relished the importance of such a cause. That cat should have eaten less for dinner.

That cat barfed on my date.

“You have to watch what she eats”, he said, and finally left.

I made a sad face to my mum, but almost high-fived the much relieved kitty. It wasn’t anybody’s fault. I guess I just wasn’t ready to grow up.

*

Crescer é um porre

Eu estava esperando no portão. Não via a hora de ir para a casa descansar um pouco depois de um dia de cão, coberta de tinta e morta de vontade de comer um Danette. Minha carona disse que ia me pegar às três da tarde em ponto, mas até ali, nada. Eu já estava xingando os deuses por me deixarem plantada ali e quase perdendo as esperanças, mas então ele veio. Seus braços e pernas estavam cobertos por tantas cores quanto os meus, mas ele carregava um sorriso triunfante nos lábios e um buquê de flores nas mãos. Ele me deu o buquê e disse que me amava. Bom, na verdade, o pai dele me disse que ele estava apaixonado por mim. Aceitei as flores com um sorriso educado e fiz a única coisa decente naquela situação: pisoteei o buquê. Naquela hora, minha mãe queria mais era ter chegado ainda mais tarde para me buscar. Eu tinha cinco anos.

Com esse tipo de histórico, é incrível que eu tenha conseguido beijar um cara pela primeira vez quase dez anos depois. Não é que não estivesse interessada nos meninos, mas parecia que o mundo era muito mais do que se embonecar toda e ficar suspirando ao ver uns moleques suados jogando bola. Mas, quando minha escola foi em uma excursão ao Playcenter, eu nem acreditei quando o menino da oitava série veio falar comigo.  Eu estudava à tarde, ele, pela manhã, o que fazia do cara uma criatura exótica, quase mítica, praticamente um unicórnio alado que conseguia acordar cedo o suficiente para ir (ou voar) para a aula. Tudo bem, o beijo dele fez a minha cabeça girar mas, loopings à parte, eu bem que preferiria ter dado mais uma volta na montanha-russa em vez de ficar com ele.

Depois do que ficou conhecido como “o incidente do buquê”, minha mãe ficou cada mais vez ansiosa, e louca para tornar realidade seu sonho de preencher os lugares na mesa de jantar para oito pessoas. E quando ela ouviu falar que sua professora de arraiolo tinha um filho que era “um gato”, aí é que ninguém a segurava mesmo. Ela fez o cara marcar um dia para vir à nossa casa me ver – e quase tricotou um cartão de agradecimento para ele. Eu tinha 14 anos, ele, 21 – um par perfeito talvez no Alabama dos anos 30, mas agora era tarde demais e minha mãe já estava se achando a Jane Austen.

Quando o dia tão aguardado finalmente chegou, ele não trouxe flores para mim (pelo jeito a notícia tinha se espalhado naqueles últimos nove anos), mas foi gentil o bastante para cumprimentar a minha família – isso é, até um furacão silencioso passar pela casa e fazer todo mundo desparecer. Todo mundo sumiu, exceto o nosso gatinho de estimação. “Dorothy, você não está mais no Kansas.”

Enquanto o cara não parava de falar sobre o incrível mundo dos adultos e atividades ainda mais animais, tipo dirigir pela Avenida Goiás ouvindo dance music de qualidade duvidosa, fiquei segurando o gatinho no colo, como uma menina que não quer largar do ursinho de pelúcia. O felino tinha acabado de receber um upgrade e virado uma mistura de campo de força peludo e polícia da moral e bons costumes. O gato deveria ter ficado orgulhoso de ser um gato-propaganda da inocência. O gato deveria ter saboreado a importância daquela causa. O gato deveria ter comido menos na janta.

O gato vomitou no cara.

– É bom ver o que esse gato come, né? – ele disse, e finalmente foi embora.

Fiz cara de triste para a minha mãe, mas quase pedi um high-five para o gatinho, nós dois aliviados. Não tinha sido culpa de ninguém. É que eu ainda não estava pronta para crescer.

 

The circle / O círculo

Come, my dear friend. Don’t be afraid. You don’t need a warning in a dream or a baptism of blood to join our circle. Just a story to tell.

You may hold hands if you wish.

You may also save mandrakes, bezoars and rosemary for another full moon, for this is not an incantation. We are gathered here today to summon them to life.

The order is not important, as words are not greedy. They have to power to sense who needs to come out first. A woman who got married on a Thursday and never played the piano again. A mother eager to close her eyes after the funeral of her only daughter.  A grandpa waiting to marmalade toast with his grandson, for childhood ends on a blink of a paragraph. They all need to speak, and now. So read.

They had a taste of life on the paper, but only feel truly alive when rolling off the tongue.  Many dread waking up from their dream of cellulose by our bittersweet kiss, being forced to go through all that again. But there is nothing like the feel of ink flowing through your veins.

Even if only for a few minutes, they leave dusty drawers and expertly locked chests tucked away somewhere in the mind and live among us. Happy characters pray every detail will play out itself exactly like the last time. The less fortunate ones hope fate materialises, even if in the shape of a comma, and takes pity on their sad endings.

They are here until words are no longer necessary, until all that needed to be said has been told. They can sense the thoughtfully carved sentences, the climax that will make their journey be remembered. And then it comes. Looks don’t mean a thing. It is so tiny one could barely notice it and its great power to send them back. They want to linger in that special moment when no one else’s story mattered, but only theirs. But it is too late now. It’s here. Full stop.

*

O círculo

Venha, meu amigo. Não tenha medo. Você não precisa de um aviso vindo num sonho, nem de um batismo de sangue para se juntar ao nosso círculo. Apenas uma história para contar.

Vocês podem dar as mãos, se quiserem.

Você também pode guardar mandrágoras, bezoares e o alecrim para outra lua cheia, pois isso aqui não é um encantamento. Estamos reunidos para trazê-los de volta à vida.

A ordem não importa, já que palavras não são gananciosas. Elas têm o poder de sentir quem precisa vir primeiro. Uma mulher que se casou numa quinta-feira e nunca mais tocou piano. Uma mãe ansiosa para fechar os olhos depois do enterro da única filha. Um avô esperando para passar geleia na torrada para o neto, já que a infância pode acabar num piscar de parágrafo. Todos eles precisam falar, e tem que ser agora. Então, leia.

Eles já sentiram o gosto da vida no papel, mas só se sentem realmente vivos ao escorregarem pela nossa língua. Muitos temem acordar de seu sonho de celulose com o nosso beijo agridoce e serem forçados a passar por tudo aquilo de novo. Mas não há nada como a sensação da tinta pulsando nas veias.

Mesmo que apenas por alguns minutos, eles deixam gavetas empoeiradas e baús trancados em algum lugar da mente, e vivem entre nós. Personagens felizes rezam para que cada detalhe seja reproduzido exatamente como da última vez. Os menos afortunados pedem que a esperança se materialize, mesmo que em forma de vírgula, e se compadeça de seus finais infelizes.

Os personagens ficam entre nós até que as palavras não são mais necessárias, até que tudo que tinha que ser contado já foi dito. Eles conseguem sentir as frases cuidadosamente entalhadas, o clímax que tornará suas jornadas inesquecíveis. E então ele vem. Aparência não é nada. Ele é tão pequeno que passa quase despercebido, assim como seu grande poder de mandar todos de volta. Eles querem ficar para sempre naquele momento tão especial, quando a história de mais ninguém importava, apenas a deles. Mas agora é tarde demais. Ele chegou. Ponto final.

The whistle / O apito

That’s all we ever wanted to hear.  A whistle from an old steam engine which had crossed that sleepy village for the last time in the 60’s. As most railways in Brazil, the tracks had been ripped from my mum’s hometown, leaving a dusty and forgotten station behind.

Now the station was a warehouse for sacks of coffee beans, or something boring like onions. If at least they could have said it was garlic, there would be some potential vampire-hunting-related excitement going on, but no. But then again, for big city kids like us, nothing was quite what it seemed to be. Away from our grey fortress of solitude of high rises, holidays with our grandparents were our big chance to find that maybe there were jewellery thieves hiding in the abandoned movie theatre, that a tiny spring was actually the fountain of youth, or that a baby’s picture in the graveyard had blinked once. Really fast.

So we simply had to figure out the so-called “Train station mystery”. According to the tale (or a cousin, but it didn’t matter), the train driver would come back from the afterlife every now and then and blow the whistle, his love for the big iron centipede still stuck to his soul like coal dust from the furnace. He needed to hear it just one more time and then embark on his final trip for good.

As the oldest cousin and expedition leader, I needed to make sure all eight of us were always together, that we had supplies (the train station was three blocks away from my grandma’s house, but you never know) and, of course, that our parents would never find out what we were up to. We didn’t make a disgusting blood or spit pact, but solemnly promised to never, ever tell anything, even if our grandma’s famous corn cake were to be forced down our throats, as it so frequently was.

Amazingly enough, nobody followed us to the station, and the passers-by didn’t even notice our expert crew sticking ears to the ground to see if the train was finally coming. All the tall indigo doors were either boarded up or latched with a big rusty lock, but one of them had a small hole. Maybe if we were strong enough to rip off one the boards, there would be room to finally get into the station.

But we weren’t. Rumours were starting among the troops of how that expedition would have never been successful anyway without a big rock or a hair pin to pick the lock. There were also talks of mutiny in the ranks, as my sister was only 18 months younger than me, and perfectly eligible for the position. Plus, it was almost lunch time. A decision had to be made, and quickly.

As a general so often does when it comes to war, I had to sacrifice my infantry, otherwise known as the youngest cousin. Under kicks and shouts of protest, we shoved him through the small hole on the door, along with spider webs and onion peels (please say no more!) and into an otherworldly scene: maybe women wearing white gloves, having their posh luggage being pushed around by less fortunate boys? Elegant men in bowler hats reading news about the end of the war? Somebody shouting: “All on board!”? And, standing at his window in the first wagon, the train driver. First casually curling up his moustache, and then eyes bulging, a handkerchief black with coal dust to wipe the sweat on his brow. Busted! And he hadn’t even blown the whistle yet.

The poor boy came rushing out and ran away, still trying to get rid of the spider webs on his hair, crying and calling for his mum. We allowed some minutes for him to recover before the official interrogation, but he had never opened his eyes.

*

O apito

Era só o que a gente queria ouvir. O apito de uma velha maria-fumaça que tinha cruzado aquele vilarejo preguiçoso pela última vez nos anos 60. Como a maioria das estradas de ferro no Brasil, os trilhos tinham sido arrancados da cidade natal da minha mãe, deixando para trás uma estação poeirenta e esquecida.

Agora a estação era um tipo de armazém para sacas de café ou de alguma coisa sem graça como cebolas. Se pelo menos tivessem dito que era alho, haveria potencial para algum tipo de caçada a vampiros, mas não. Mas, pensando bem, para crianças da cidade grande como gente, nada parecia ser o que era. Longe da nossa fortaleza cinza da solidão de arranha-céus, as férias na casa da minha avó eram a nossa grande chance de talvez encontrar ladrões escondidos no cinema abandonado, descobrir que uma biquinha de nada na verdade era a fonte de juventude, ou que a foto daquele nenê no cemitério tinha piscado uma vez. Bem rápido.

Então a gente simplesmente precisava resolver o famoso “Mistério da Estação de Trem”. De acordo com a lenda (ou um primo, mas não fazia a menor diferença), o maquinista voltava do além de vez em quando e tocava o apito do trem, seu amor pela grande centopeia de aço ainda impregnado em sua alma como o pó da fornalha. Ele só precisava ouvir o apito mais uma vez e então partir em sua última viagem para sempre.

Como prima mais velha e líder da expedição, eu precisava garantir que nós oito estivéssemos sempre juntos, que tínhamos suprimentos (a estação só ficava a uns três quarteirões da casa da minha avó, mas nunca se sabe) e, é claro, que nossos pais nunca descobrissem o que a gente estava aprontando. Não fizemos nenhum pacto nojento de sangue nem de cuspe, mas juramos solenemente jamais nunca contar nada para ninguém, mesmo se o famoso bolo de fubá da avó Didi nos fosse forçado goela abaixo – como às vezes era mesmo.

O mais incrível é que ninguém nos seguiu até a estação, nem ninguém na rua notou nossa equipe de especialistas de ouvido grudado no chão para ver se o trem estava finalmente chegando. Todas as portas compridas e estreitas de azul índigo estavam bloqueadas com tábuas ou então trancadas com um cadeado gigante e enferrujado, mas uma delas tinha um buraco. Talvez, se tivéssemos força para arrancar uma das tábuas, o buraco ficaria grande o bastante para a gente finalmente entrar na estação.

Mas que força, nada! E boatos já tinham começado a se espalhar por entre as tropas sobre como aquela expedição jamais seria bem-sucedida sem uma pedra de tamanho decente ou um grampo para abrir o cadeado, como nos filmes. Também começaram rumores de motim em todos os flancos: afinal, minha irmã era só um ano e meio mais nova que eu e poderia perfeitamente assumir a minha posição. Além do mais, era quase hora do almoço. Uma decisão tinha que ser tomada, e rápido.

E como um general é obrigado a fazer tantas vezes na guerra, tive que sacrificar a minha infantaria, também conhecida como o primo mais novo. Sob chutes e gritos de protesto, enfiamos o menino pelo buraquinho na porta, junto com teias de aranha e cascas de cebola e direto para uma cena do outro mundo: talvez mulheres de luvas brancas, com sua bagagem chique sendo empurrada por meninos menos afortunados? Homens elegantes de chapéu coco lendo as notícias sobre o fim da guerra? Alguém gritando “Todos a bordo!”? E, de pé à janela da maria-fumaça, o maquinista. Primeiro arrebitando as pontinhas do bigode como quem não quer nada, e então arregalando os olhos, um lenço preto de carvão enxugando o suor da testa. Pego no flagra! E ele ainda nem tinha tocado o apito!

O coitado do menino voltou num piscar de olhos e saiu correndo, ainda tentando se livrar das teias de aranha no cabelo, chorando e chamando a mãe. Esperamos um pouco antes de começar o interrogatório oficial mas, lá dentro da estação, ele nunca tinha nem aberto os olhos.