Tangled / Entrelaçada

“My granny used to work in the shipyard’s rope factory at the beginning of the century. It wasn’t an easy job but, on the other hand, whenever a ship was finally ready at the docks, the workers had the privilege to go on board before anyone else. The rope she had made herself came down from the deck and they had the pleasure of exploring the vessel before the rich passengers embarked on it.”

I started braiding the hair of my dollies. The strings that had come from a forgotten yarn ball were divided into three tight sections of more or less the same thickness. The one on the right went over the middle one, the one on the left went under it and, while the little rag doll got a princess hairdo, I didn’t have to think about the smoke-blackened air, about mum on her knees scrubbing our front step, or about daddy’s whiskey bottle.

When the day came and I had to leave my dolly behind, my fingers left the soft and colorful wool for the rigid fiber of the hemp that came from the Philippines, which I had no idea where was, but that surely existed way beyond the green pastures of Northern Ireland. Wherever it had come from, the string wasn’t fond of being stuck in one place for too long. My agile fingers transformed it in the best ship rope, and the exotic material then embarked on yet another journey. I wondered if, as sailors who have a girlfriend in each port, the rope would also find a girl like me at every stop, fingers a-ready to tend to injuries and stroke sore muscles.

Before leaving, the rope was generous enough to let me have a taste of the adventure that was yet to come. It was my passport to respectfully climb onto the brand new ship’s deck. Then, my fingers, so used to the coarseness of the fiber, tasted the smoothness of mahogany and velvet. After our goodbyes, only one of us reluctantly returned to the factory.

I did not want to stay. While I braided the rope, I dreamed of becoming a Greek Moira and weave my destiny far, far away from there. Or a sort of Rapunzel, finally finding someone not to let my golden hair down to, but who would lend me a hand and help me climb onto the deck.  And leave behind the shipyard, the exhaustion, that future that didn’t belong to me.

But the ship blew its horn and left to never return.

Today I braid my granddaughters’ long and prematurely dyed hair. The luxurious ships have disappeared to give place to oil platforms and other static steel and iron giants, too boring to even attempt floating in salt water. The transatlantic liners don’t dock here anymore, but sometimes I shut my eyes really tight and hear the low pitch of that horn. A high pitch stab in my heart.

*

Entrelaçada

“Minha avó trabalhava na fábrica de cordas para navios do início do século. Não era um emprego fácil mas, em compensação, quando um navio ficava pronto nas docas, eles tinham o privilégio de subir a bordo primeiro. A escada de corda que ela mesma tinha feito descia do deque e os operários tinham o prazer de passear pelo barco antes de os passageiros endinheirados embarcarem.”

Comecei trançando os cabelos das minhas bonecas. Os fios de lã herdados de algum novelo esquecido eram repartidos em três mechas justas, mais ou menos da mesma grossura. A da direita passava por cima da mecha do meio, a da esquerda por baixo dela e, enquanto a bonequinha de pano ganhava penteado de princesa, eu não precisava pensar no ar enegrecido pela fumaça, na mãe esfregando de joelhos o degrau à porta da nossa casa, na garrafa de uísque do pai.

Quando chegou o dia de deixar a boneca de lado, meus dedos trocaram a lã macia e colorida pela fibra rígida do cânhamo, chegada das Filipinas, que eu não sabia onde era, mas que com certeza ia muito além das coxilhas verdes da Irlanda. Seja de onde fosse, ela não gostava de ficar muito tempo em um lugar só, porque meus dedos ágeis a transformavam na melhor corda para embarcações, e lá ia a matéria-prima exótica viajar de novo. E eu ficava imaginando se, como os marinheiros que têm uma namorada em cada porto, a corda também encontraria uma moça como eu em cada parada, dedos prontos para curar machucados e afagar músculos cansados.

Antes de partir, a corda era generosa o bastante para me dar um gostinho da viagem que estava por vir. Ela era meu passaporte para que eu respeitosamente subisse ao deque do transatlântico recém-terminado, e meus dedos tão acostumados à aspereza das fibras provavam a maciez de mognos e veludos. Depois da despedida, só uma de nós voltava relutantemente para a fábrica.

Eu não queria ficar. Enquanto trançava a corda, eu sonhava tomar ares de uma moira grega e tecer o meu próprio destino muito longe dali. Ou, em uma Rapunzel às avessas, encontrar alguém não a me jogar as tranças do alto da torre em busca de socorro, mas que que me estendesse a mão lá do alto do deque. O estaleiro, a exaustão, aquele futuro que não era meu ficando para trás.

Mas o navio tocou a buzina e partiu para nunca mais voltar.

Hoje tranço os longos fios prematuramente tingidos das filhas das minhas filhas. Os transatlânticos luxuosos deram lugar a plataformas de petróleo e outros gigantes estáticos de aço e ferro, enfadonhos demais até para se lançarem à façanha de boiar na água salgada. Os navios não passam mais por aqui, mas quando fecho os olhos bem apertados, ouço aquela buzina grave. Dor aguda no meu coração.

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The day after / O dia seguinte

It is sand, but it might very well be treacle. The legs keep on skidding in the grainy darkness, while he tries to find shelter for the night. He could have tried to dig a burrow, but the freezing wind of the desert whirls around him in a tiny frosty hurricane. The best bet right now is finding a hole or a cave before a famished tongue finds him first.

“But morning will come, and everything will be all right,” he says.

He can almost feel the warmth of the first rays of the dawn going through his shiny armor,  the relief while stretching his legs and claws in the glorious light. But right now he must focus, he must keep moving. Maybe over that mound? He finally sees a hollow between a couple of rocks by a big dune, but the ants got there first. The new neighbors would be minute, but that is certainly a full house, and he doesn’t care for that. He must keep looking.

“The sun will be out soon, and I’ll be fine.”

Oh a nice sunbath and a gentle breeze, no more running around for a little while, the happiness of putting one’s eight feet up and relaxing. He can’t even feel them, numb from the cold. He has been running forever; how long has it been now? Four hours? Eight? The exhaustion keeps on playing tricks on his eyes. Was that a little speckle of light in the blackness?

“Could that possibly be Venus heralding the morning? Maybe Mercury? It can’t be that long now.”

He shivers and plows on, trying to avoid the remains of the less fortunate ones, for whom the night never came to an end. Torn wings, broken limbs, sometimes a soft and moribund buzzing comes down amid the sand and other debris. Trying to cross a graveyard can never be fun, but the problem is that the dead love company, and hungry scaled predators are eagerly waiting to make you join them.

“Must. Keep. Going.”

He finally sees it. First, a pale yellow hue, shortly followed by a healthy yolk-ish tone. Then, an explosion of oranges, and at last the reassurance of a plump half circle in a clear blue sky. This is the desert, folks, there are no larks to sing an ode to the morning, but it doesn’t really matter. Oh, it is finally here! The warmth runs through his body, from head to tail, in a toasty embrace of sunshine. Ah, life can be good. No more running away, no more running… no more moving at all?

That’s funny. At first, he thought his legs were too tired, but now they feel virtually glued to the sand. He tries to pull ahead with his claws, but they only drown deeper into the sand. The black licorice-like shell starts to turn into dark syrup, and all his eight knees buckle.

“No, oh no, this cannot be happening.”

Both claws are already halfway down the sand, quicksand, and unfortunately, he knows what comes next. His tail has never felt so heavy, and what is the point of carrying this kind of weight above one’s head for a lifetime anyway?

“Keep it up, man. Keep. It. Up…”

As the sun starts its long journey across the sky, the scorpion’s chitinous shell cannot withstand the heat. The long curved tail inevitably descends, and the venomous stinger slowly touches his head.

*

O dia seguinte

É areia, mas poderia ser melaço. As pernas insistem em patinar na escuridão granulosa, enquanto ele busca abrigo para passar a noite. Ele poderia tentar cavar uma toca, mas o vento congelante do deserto o envolve em um pequeno furacão glacial. O melhor a se fazer agora é encontrar um buraco ou uma caverna, antes que uma língua faminta o encontre antes.

– Mas logo amanhece, e vai dar tudo certo – ele diz.

Ele quase consegue sentir os primeiros raios do amanhecer penetrando sua armadura brilhante, o alívio de esticar as pernas e pinças à luz gloriosa do Sol. Mas agora precisa se concentrar, e continuar seguindo em frente. Talvez depois daquele morro? Ele finalmente avista um espaço oco entre as pedras, mas as formigas chegaram lá antes. As novas vizinhas seriam minúsculas, mas um é pouco, dois é bom, três mil é demais, e ele não está a fim. A busca continua.

– Daqui a pouco o Sol vem, e tudo se resolve.

Ah, um banho de Sol com uma brisa gentil, não ter mais que sair correndo, a alegria de botar os oito pés para cima e relaxar. Ele nem consegue mais sentir os pés, adormecidos pelo frio. Faz tanto tempo que está correndo! Quatro horas? Oito? Agora a exaustão prega peças em seus olhos. O que é aquele salpicado de luz na escuridão?

– Será que é Vênus anunciando a manhã? Talvez Mercúrio? Agora não vai demorar.

Ele treme e segue em frente, tentando evitar os restos dos menos afortunados, para quem a noite nunca teve fim. Asas rasgadas, membros quebrados, e às vezes um zumbido fraco e moribundo vêm junto com a areia e outros detritos. Tentar cruzar um cemitério nunca é uma tarefa prazerosa, mas o problema é que os mortos adoram companhia, e predadores escamosos e famintos não veem a hora de mandar você para o outro lado.

– Preciso… continuar…

E então ele finalmente vê. Primeiro, um toque tímido de amarelo, seguindo por um tom saudável de gema. Depois, uma explosão de laranjas e, por fim, a esperança de um meio círculo gordo no céu azul. Isso aqui é o deserto, amigos, não há cotovias para improvisar uma ode à manhã, mas não importa. Ah, ela finalmente chegou! O calor percorre o corpo dele, da cabeça à cauda, em um abraço morno de luz. A vida é boa. Chega de fugir, chega de correr… chega de se mexer?

Que estranho. Primeiro ele achou que as pernas estivessem cansadas demais, mas agora elas pareciam grudadas à areia. Ele tenta arrastar o corpo à frente usando as pinças, mas elas só afundam ainda mais. A carapaça de alcaçuz começa a se transformar em uma calda escura, e os oitos joelhos não resistem e vão ao chão.

– Ah, não, não. Isso não pode estar acontecendo.

As duas pinças já estão cobertas de areia, areia movediça, e infelizmente ele sabe o que vem por aí. A cauda nunca lhe pareceu tão pesada, e qual é o sentido de carregar esse peso todo acima da cabeça a vida inteira, hein?

– Segura, cara. Segura…

Enquanto o Sol começa sua longa jornada pelo céu, a carapaça quitinosa do escorpião não consegue suportar o calor. A cauda longa e curva inevitavelmente aponta para baixo, e o ferrão venenoso toca sua cabeça lentamente.

Chocolate can cure up to 480 diseases, specialists say / Chocolate pode curar até 480 doenças, dizem especialistas

Substance found in cocoa beans could help in the treatment of minor illnesses. Nonetheless, when it comes to portions, common sense is still key

MEXICO CITY – After seven years of ongoing research, Mexican researchers have found a substance in the cocoa bean that may be the answer for the stresses of modern life. According to the scientists of the Food Science Department at the University of Montezuma, eating moderate quantities of chocolate daily could help in the treatment of addiction to smartphones, reality show tantrums, fear of the dark, machoism and even CGS (compulsive gossip syndrome), among other 480 minor yet troublesome afflictions.

The substance, named “cortezis felicis” as a tribute to the Spanish conquistador Hernan Cortez, who took the beans from the Aztecs to Europe in the 1500’s, had been studied before, but somehow previous researchers had never been able to link it to the overall feeling of satisfaction we have after having a chocolate bar. “It had always been thought that the sugar mixed with the cocoa was responsible for that fuzzy feeling in your tummy and your heart,” Dr. Coco Delicatessen, food engineer and leader of the study at the UoM explains, “And somehow this little rascal had never been under scrutiny before.” According to Dr. Delicatessen, the substance basically sends a message of happiness to the brain, which then stops “worrying” about less pressing issues, like Kim Kardashians’ latest baby or your neighbours’ new fake designer bag.

Dr. Delicatessen and her team conducted a simple experiment with about 8,000 volunteers of both genders and varied ages, and discovered that, for example, 76% of subjects who ingested at least 50 grams of chocolate a day were less likely to check their Whatsapp messages in the next 30 minutes. Over 85% of men who had just arrived from work refrained from ordering their wives to bring them a cold beer.  An impressive 98% of children who participated in the study didn’t recall suffering from monster in the closetness if consuming at least five Smarties before going to bed. On the other hand, 45% of teenage girls still struggled with justinbiberitis even after devouring up to eight KitKats while listening to horrible music. “We must take the studies further and see if there is a way to maximize the substance’s effect for extreme cases like those,” explains Dr. Kurly Wurrly, a visiting scholar from the Tobler College, in Switzerland. “It surely is a rocky road.”

Although this is great news for chocoholics all over the world, Dr. Delicatessen and her team caution that eating huge amounts of chocolate may actually reverse the “cortezis felicis” effect. People who have no dietary restrictions should limit their daily intake to 100 grams – or 105 grams at the most if the chocolate of choice is Ferrero Rocher, for its serious yumminess. “Tummy will go booboo if the person eats too much chocolate and then the previous symptoms may reoccur on an even higher level. And people may also cry,” warns Dr. Delicatessen.

The team at the UoM is now working on a study to reveal if chocolate would also be effective for treating ingrown toenails, dandruff and evil eye, but results have been inconclusive so far.

*

Chocolate pode curar até 480 doenças, dizem especialistas

Substância encontrada no cacau poderia ajudar no tratamento de simples patologias. No entanto, quando o assunto é quantidade, o bom senso ainda é fundamental

CIDADE DO MÉXICO – Após sete anos de pesquisas contínuas, cientistas mexicanos encontraram uma substância no cacau que pode ser a resposta para os estresses da vida moderna. Segundo os pesquisadores do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade de Montezuma, o consumo diário de quantidades moderadas de chocolate poderia ajudar no tratamento de vício em smartphones, chiliques de reality show, medo do escuro, machismo e até mesmo SFC (síndrome da fofoca compulsiva), entre outras 480 patologias tratáveis, porém incômodas.

A substância, batizada de “cortezis felicis” em homenagem ao conquistador espanhol Hernan Cortez, que levou o cacau dos astecas para a Europa no século 16, já havia sido estudada antes, mas, por algum motivo, os pesquisadores anteriores nunca foram capazes de ligá-la à sensação generalizada de satisfação que sentimos depois de comer chocolate. “Até então, pensava-se que o açúcar misturado ao cacau era o responsável por aquele sentimento de felicidade na barriga e no coração”, a Doutora Laka Delicatessen, engenheira de alimentos e líder da pesquisa na UM, explica, “E, de alguma maneira, essa substanciazinha levada nunca foi analisada a fundo antes.” De acordo com a Dra. Delicatessen, a substância basicamente envia uma mensagem de felicidade para o cérebro, que então para de se “preocupar” com assuntos menos importantes, como a filha de Kim Kardashian ou a nova bolsa de marca (falsa) da vizinha.

A Dra. Delicatessen e sua equipe conduziram um experimento simples com cerca de 8 mil voluntários de ambos os sexos e idades variadas e descobriram, por exemplo, que 76% dos participantes do estudo que ingeriram pelo menos 50 gramas de chocolate por dia apresentavam uma propensão menor a checar suas mensagens no Whatsapp nos próximos 30 minutos. Mais de 85% dos homens que tinham acabado de chegar do trabalho se contiveram antes de pedir à mulher para trazer uma cerveja gelada. E impressionantes 98% das crianças no estudo não se lembram de sofrer de Transtorno de Monstro Debaixo da Cama (TMDC) se consumissem pelo menos cinco M&Ms antes de irem dormir. Por outro lado, 45% das adolescentes ainda lutavam contra a justinbiberite mesmo depois de devorarem até oito Chokitos enquanto escutavam música de péssima qualidade. “Temos que aprofundar os estudos e checar se existe uma maneira de maximizar o efeito da substância para casos extremos como esse,” explica o Dr. Lollo Suflairis, da Faculdade de Tobler, na Suíça. “Já estamos prevendo trancos e barrancos nesse caminho crocante”.

Apesar da ótima notícia para chocólatras no mundo todo, a Dra. Delicatessen e sua equipe alertam que comer grandes quantidades de chocolate na verdade pode reverter o efeito “cortezis felicis”. Pessoas sem restrições alimentares devem limitar sua ingestão diária a 100 gramas – ou 105 gramas no máximo se o chocolate de escolha for o Ferrero Rocher, por exemplo, devido ao seu alto teor de gostosura. “A barriguinha vai doer se a pessoa comer chocolate demais e, então, os sintomas anteriores podem voltar com ainda mais força. E pode ser que ela chore também,” avisa a Dra. Delicatessen.

A equipe na UM agora está trabalhando em um estudo que busca revelar se o chocolate também poderia ser usado com sucesso no tratamento de unha encravada, caspa e olho gordo, mas os resultados até o momento têm sido inconclusivos.

The ring / O anel

Vincent loved the peaceful and historical atmosphere of graveyards. It gave him room and solitude to think about what really mattered. Anyhow, that is what he liked to tell himself. Actually, there wasn’t much on TV that evening, or in his fridge, and the graveyard was on the way to Babbo Gino, a great pizza joint. Dreaming about the perfect pepperoni/cheese ratio, Vincent could have never pictured coming across into something much less prosaic and way creepier: a hand coming out of a grave.

It wasn’t that decrepit hand you’d remember from cliché horror movies: no putrefied flesh, no yellowish fingernail, no disgusting finger literally holding on by a thread. If this were the 19th century, Vincent would say that feminine hand was as delicate as a little dove, a manicured dove even. The sparkle from the pearly choice of nail varnish was outshone only by a big rock on her finger. Are diamonds a dead girl’s best friend?

What was the right thing to do? Yank it off, shove the hand back into the damp dirt and spend it all on pizza? Just cover it up, protecting the poor girl’s privacy and just move on, be the unsung hero for a day? But when Vincent gave two steps towards the headstone, the hand decided for him.

Well, not the hand, but the voice that come from under the grave.

“Marry me oh dear sir /For I was not happy while alive / My love left me here to die / On my wedding day.

Marry me oh dear sir / For I’m still looking for a groom / To free me from death and the gloom / To come back and make him pay.”

What the hell was going on? As in his fridge, there wasn’t much going on in Vincent’s bedroom either. After Ronda, he had managed to have a couple of relationships, but the first kiss always came with the same bitter aftertaste of the big fat full carb and gluten “no” Vincent received when he had proposed to his high-school sweetheart. Ronda said “no” while he was still on one knee. Ronda said “no” even before taking a peek at the ring. Ronda said “no” and married an estate agent.

He had to admit the past few years had been quite lonely, but marrying somebody he barely knew? He hadn’t even followed the brave new man’s  dating routine: finding a girl on Tinder, stalking her on Facebook, see if she could at least spell correctly in her texts – no, sir, looks are not everything. He was sure that could be arranged, but could the dead text from the afterlife? Skype?

He heard her voice again.

“Marry me oh dear sir / For my beauty shall return / And a great passion shall burn / As you have never seen before.

Marry me oh dear sir / And please take this golden ring / A symbol of love, not only bling / And I’ll leave you wanting more.”

Suddenly, another hand, much like the first one, emerged from the black dirt, the open palm offering a thick gold band.

That girl could be a bit straight-forward, but was definitely prepared. Vincent took a look at the portrait in sepia at the headstone. Wavy locks, full lips, eyes with the just right amount of mischief, as if begging him to open the brooch that hid the collar of her blouse – and hopefully her chastity.

“Marry me oh dear sir / And bring me back to the living / My love is strong and forgiving / And I’ll own you with my life.

Marry me oh dear sir / I cannot wait any longer / My desire is growing stronger / I just want to be your wife.”

It was decision time. What if another guy came through the graveyard and grabbed the ring before he did? After all, Babbo Gino was extremely popular. Besides, that could be a metaphor for the Vincent he had always wanted to be: a Vincent who seizes great opportunities, a Vincent who lives life to its fullest, a Vincent who orders supersized fries. A Vincent who grabs a wedding ring and gets married right here, right now.

Vincent grabbed the wedding band and stuck it in his finger. What now? He decided it would be quite romantic to lean over and kiss his bride’s hand to seal the deal, but his lips didn’t even have the chance to touch the cold blueish skin. Both hands grabbed his head and started the slow and sweaty process of dragging a grown man six feet under. Gold band and all.

“You’ve married me oh dear sir / And now I’m free to drink and dance / Wasn’t looking for romance / But I’m sure you’re a great guy.

You’ve married me oh dear sir / And didn’t even know my name/ Male desperation is quite lame / So I shall live and you shall die.”

That night, Babbo Gino got a special order. Double pepperoni and cheese for the girl in the wedding dress.

*

O anel

Vincent adorava o clima cheio de paz e história dos cemitérios. Ali ele tinha o espaço e a solidão necessários para pensar naquilo que realmente importava. Bom, pelo menos era isso que Vincent gostava de dizer a ele mesmo. Na verdade, não tinha nada na TV naquela noite, nem na geladeira dele, e o cemitério ficava no meio do caminho para a Babbo Gino, uma pizzaria incrível. Já sonhando com a proporção perfeita de queijo e pepperoni, Vincent nem imaginava dar de cara com uma coisa bem menos prosaica e muito mais assustadora: uma mão saindo de uma sepultura.

Não era aquela mão decrépita que a gente se lembra de filmes de horror bem cliché: nada de tecido putrificado, nem unha amarelada, nem um único dedão nojento dependurado ali por um triz. Se estivéssemos no século 19, Vincent diria que aquela mão feminina era tão delicada quanto uma pombinha – ou até mesmo uma pomba de unhas feitas. O brilho do esmalte perolado só perdia para o fulgor daquela pedrona preciosa no anelar. Os diamantes também são os melhores amigos das garotas mortas?

O que era a coisa certa a fazer? Arrancar o anel com tudo, enfiar a mão de volta para a terra ainda úmida e gastar tudo em pizza? Cobrir anel, mão e tudo mais para proteger a privacidade da coitada da moça e seguir em frente, e ser o herói desconhecido do dia? Mas quando Vincent deu mais dois passos em direção à lápide, a mão decidiu por ele.

Bom, não a mão, mas a voz que veio lá da tumba.

“Case-se comigo, ó senhor / Pois quando viva fui desgraçada / E pelo meu amor abandonada / No dia do meu casamento.

Case-se comigo, ó senhor / Pois ainda procuro um marido / Meu amor por ti jamais será olvido / E quero me vingar daquele jumento.”

Mas o que era aquilo? Assim como em sua geladeira, a vida amorosa de Vincent também andava bem vazia. Depois de Ronalda, ele havia tido alguns relacionamentos, mas o primeiro beijo sempre vinha com o mesmo gosto amargo do “não” integral, com gordura e com glúten, que Vincent levou ao pedir em casamento sua namoradinha de colégio. A Ronalda disse “não” quando ele ainda estava apoiado sobre um joelho. A Ronalda disse “não” mesmo antes de dar uma olhadinha no anel. A Ronalda disse “não” e se casou com um corretor de imóveis.

Ele tinha que admitir que os últimos anos tinham sido bem solitários, mas se casar com alguém que ele mal conhecia? Ele nem havia seguido a rotina do moçoilo namoradoiro moderno: achar uma menina no Tinder, perseguir a coitada no Facebook, ver se ela pelo menos não cometia erros demais de ortografia ao mandar uma mensagem no celular – pois é, e você achava que aparência era tudo? Ele tinha certeza de que tudo isso poderia ser planejado, mas será que os mortos mandavam mensagens de texto do lado de lá? Será que o Skype funcionava no além?

Ele ouviu a voz dela de novo.

“Case-se comigo, ó senhor / Pois minha beleza voltará / E uma grande paixão queimará / Dessas que você nunca viu antes.

Case-se comigo, ó senhor / E tome para si esse anel de ouro / Meu amor será o maior tesouro / E minha devoção por ti, abundante.”

De repente, a outra mão, bem parecida com a primeira, emergiu da terra preta, a palma aberta oferecendo uma aliança grossa de ouro.

Aquela moça podia ser um pouco avançadinha, mas com certeza estava preparada. Vincent deu uma olhada para o retrato em sépia na lápide. Cabelos levemente cacheados, lábios carnudos, olhos com a quantidade exata de safadeza, como se implorando para que ele abrisse o broche que escondia a gola da blusa dela – e, com sorte, sua castidade.

“Case-se comigo, ó senhor / E me traga de volta para os vivos / Por ti meu amor sempre será explosivo / Me tome em seus braços quando quiser.

Case-se comigo, ó senhor / Pois já não posso mais esperar / A ânsia por ti sou incapaz de controlar / Só quero ser a sua mulher.”

Era a hora de tomar uma decisão. E se outro cara passasse ali pelo cemitério e pegasse a aliança antes dele? Afinal, a Babbo Gino era uma pizzaria famosíssima. Além disso, aquela situação poderia ser uma metáfora para o Vincent que ele sempre quisera ser: um Vincent que aproveita as oportunidades, um Vincent que vive a vida ao máximo, um Vincent que pede McFritas tamanho Mega. Um Vincent que pega uma aliança e se casa aqui e agora.

Vincent pegou a aliança e a enfiou no dedo. E agora? Ele decidiu que seria bem romântico se agachar e beijar a mão da noiva para fechar negócio, mas seus lábios nem tiveram a chance de tocar aquela pele azulada. As duas mãos agarraram a cabeça dele e começaram o processo lento e trabalhoso de arrastar um homem inteiro para sete palmos abaixo da terra. Com aliança de ouro e tudo.

“Você se casou comigo, ó senhor / E agora estou livre para beber e dançar / Eu não queria mesmo me amarrar / Mas sei que encontrarás uma garota de sorte.

“Você se casou comigo, ó senhor / E nem ao menos sabia o meu nome / Desespero assim não é coisa de homem / Então vou viver a vida e você, a morte.”

Naquela noite, o pizzaiolo do Babbo Gino recebeu um pedido especial. Pepperoni com queijo duplo para a menina do vestido de noiva.

Neverland / Terra do Nunca

“I don’t want to grow up”, said my niece Ciara, 5 years old, in tears the last time we were leaving Dublin. I am sure she felt a lot better about the future once I gave her that Percy Pig, but I don’t blame her: why would anyone want to deal with a world of mortgages, driving tests and heartbreak?

And it is not like no one has ever felt that way before. Ponce de León must still be roaming around the world looking for his fountain of youth, now probably at a Venezuelan beauty pageant. But, so far, no boy in green tights has arrived flying through by bedroom window to take me away – which would be a bit creepy in so many ways. Refusing to grow up is like trying to build a dam on a stream on a perfect summer’s day, the fireflies the only witnesses when the sun comes down and all the hard work is lost, as eventually everyone gets their feet wet. And then find themselves in adulthood up to their knees. To their eyes.

As it is impossible to stop the clock, I am looking for ways to dip my toes in that fresh water again just for a few minutes. No need for police phone booths, psychedelic tunnels or awkwardly winged Deloreans. So this is what I would like to do (Warning! Don’t put your list together on an Excel sheet, as there would be no way back from such a crime of adult boredom):

Take more than 20 minutes to choose a flavour at the ice cream parlour;

Still manage to think I would make a great astronaut someday;

Write (and post) postcards to my dog while I am on holidays;

Stay home on Saturday mornings to catch up on my cartoons while I still have my PJs on;

Feel my mum’s fingers running through my hair as I am falling asleep;

Think of dad as my hero even after seeing the man behind the cape;

Still smell the tobacco and the rose water even though my grandparents have been gone for so long.

And then I would find myself on the brown leather backseat of my dad’s white Ford Maverick with my best friends, melting lollies at hand and no seatbelt in sight, on our weekly trip to the playground on a sunny Sunday morning.

And then I wouldn’t have to follow the second star to the right, and straight on till morning.

*

Terra do Nunca

“Eu não quero crescer”, disse a minha sobrinha Ciara, de cinco anos, aos prantos na última vez em estávamos indo embora de Dublin. Tenho certeza que a perspectiva da menina em relação ao futuro melhorou muito depois da balinha que dei para ela, mas também não a culpo: por que alguém iria querer lidar com um mundo de financiamentos de casa própria, exames de carteira de habilitação e corações partidos?

E não é também como se ninguém nunca tivesse se sentido assim antes. Ponce de León ainda deve estar vagando pelo mundo em busca da fonte da juventude – agora provavelmente no concurso de Miss Venezuela. Mas, até agora, não recebi a visita de nenhum menino entrando pela janela do meu quarto, usando legging verde – o que seria ligeiramente assustador em tantos contextos diferentes. Recusar-se a crescer é como tentar construir uma pequena barragem em um riacho em um dia perfeito de verão, os vagalumes as únicas testemunhas quanto o sol se põe e todo aquele trabalho árduo vai literalmente por água abaixo, enquanto todo mundo finalmente molha os pés. E se encontram imersos em maturidade até os joelhos. Até os ossos.

Como é impossível fazer o relógio parar, estou procurando um jeito de molhar meu dedão do pé naquela água fresca de novo, nem que seja por alguns minutos. E sem necessidade de usar túneis psicodélicos, nem Deloreans e suas asas desajeitadas. Então, aqui está o que pretendo fazer (Cuidado! Não faça a sua lista em uma planilha de Excel, já que não há caminho de volta de um crime de chatice adulta desse teor):

Levar mais de 20 minutos para escolher um sabor na sorveteria;

Ainda achar que eu daria uma ótima astronauta um dia;

Escrever (e mandar) cartões postais para o meu cachorro quando eu sair de férias;

Ficar em casa de pijama aos sábados de manhã para me atualizar com os meus desenhos na TV;

Sentir minha mãe fazendo cafuné nos meus cabelos enquanto tento cair no sono;

Achar que meu pai é o meu herói mesmo depois de ver o homem por trás da capa;

Ainda sentir o cheiro de tabaco e perfume apesar dos meus avós já terem ido embora há tanto tempo.

E então eu estaria de volta no banco de trás de couro marrom do Maverick branco do meu pai com os meus melhores amigos, picolés derretendo até os cotovelos e nenhum cinto de segurança à vista, na nossa visita semanal ao parquinho em São Caetano, em uma manhã ensolarada de domingo.

E então eu não teria que seguir a segunda estrela à direita, e então direito, até o amanhecer.

The guest / O hóspede

When you first checked-in, you were the perfect guest: discreet, the kind that makes his bed even though there is room service, almost imperceptible. You hardly unpacked, as if you were trying to take as little room as possible. Of course there were some fundamental changes on our menu – the more-spinach-and-less/zero-wine routine can be a bit of a pain –, but you kept quiet at meal times, and didn’t seem to mind going to bed early. I bet you would have hung up a “don’t disturb” sign on the door, if that were possible.

Maybe you knew that, even though silent, our deal was on: the longer you stayed, the roomier your en-suite would get, and that was enough. As you know very well now, the facilities are definitely not the most modern. There is no Wi-Fi or Netflix, and you might stumble on a bidet or an avocado green sink, or another archaeological relic from the 70’s, but everything has been checked and everything works, at least so far. It’s not like this place has a brochure full of eye-catching pictures to attract tourists, and you couldn’t have known in advance, but I am still so happy you have decided to stay with us.

There is no booklet displaying the main attractions and interesting activities in the area, but our service does include concierge advice on directions and options for you to continue on your long journey. In similar places, people find the concierges are a bunch of know-it-alls that won’t let you make your own decisions and overwhelm the special guest with so much advice and expectation the he finds himself even more disoriented than at the beginning of the trip. Some of them even insist on taking the guest’s hand to cross the street for the first time, for crying out loud – and although that could be necessary, we pride ourselves in the fact that we will not do that to you. Ever. But, then, again, that is what every hotel staff says.

And when the time comes, when your room is too small and you are feeling too wriggly and eager to finally stretch your legs and explore, I would like to ask only one thing of you: in the same way when you checked-in, please take your time to leave. I know they have given you (and us, too) a check-out time, but there is no need to rush. Pack your bags slowly, look methodically to see if you haven’t forgotten a favourite memory under the bed or maybe an important lesson in the wardrobe – or your toothbrush. And, when you are out there in the big wild world, please do not forget about us. Don’t hesitate to call and ask for directions, or just stop by for a cup of coffee. I would like to ask just one small favour, though: please refrain from posting any reviews or stars on TripAdvisor, as the management is still not sure we should take more guests in the future.

And, when you do check out, please feel very welcome, son. Mummy and daddy are looking forward to seeing you.

“I will hold you for as long as you like

I’ll love you for the rest of my life.”

(Paul McCartney – Calico Skies)

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O hóspede

Você foi o hóspede perfeito ao fazer o check-in: discreto, do tipo que arruma a própria cama mesmo quando há camareira, uma presença quase imperceptível. Você mal desarrumou as malas, como se estivesse tentando ocupar o mínimo de espaço possível. É claro que tivemos que fazer algumas alterações no menu – a combinação de mais espinafre com menos vinho, ou vinho nenhum, não é para todos os gostos –, mas você permaneceu quieto às refeições, e não parecia se importar em ir dormir cedo. Aposto que você teria pendurado uma plaquinha de “Não perturbe” à porta, se fosse possível.

Talvez você já soubesse que, embora silencioso, nosso acordo já havia sido selado: quanto mais tempo você ficasse por aqui, maior sua suíte se tornaria, e aquilo era o suficiente. Como você já sabe muito bem agora, as instalações não são das mais modernas. Não há Wi-Fi, nem Netflix, e talvez você tropece de vez em quando em um bidê ou uma pia verde abacate, ou outra relíquia dos anos 70; mas tudo foi checado e tudo funciona, pelo menos por enquanto. Esse lugar também não tem folhetos recheados de fotos atraentes para atrair turistas, e você não tinha como saber como seria antes de chegar aqui, mas mesmo assim fico muito feliz por você ter decidido ficar com a gente.

Também não temos um guia com as principais atrações e atividades na área, mas a nossa estadia inclui serviço de concierge, que pode fornecer orientação e opções para que você continue sua longa jornada. Em outros locais similares, as pessoas acham que os concierges são um bando de sabe-tudos que não deixam o hóspede tomar as suas próprias decisões e o inundam com tantos conselhos e expectativas que o pobre se encontra ainda mais desorientado que no começo da viagem. Alguns deles até mesmo insistem em levar o hóspede pela mão na hora de atravessar a rua, pelo amor de Deus – e, apesar de isso talvez se provar necessário, temos orgulho em dizer que não faremos isso com você. Nunca. Mas, pensando bem, todo staff de hotel diz a mesmíssima coisa.

E quanto a hora chegar, e seu quarto ficar pequeno demais, e você ficar impaciente demais e animado para esticar as pernas e sair para explorar, eu só gostaria de pedir uma coisa: da mesma maneira quando você fez o check-in, por favor não se apresse para ir embora. Eu sei que eles deram a você (e para nós também) um horário para fechar a diária, mas não há motivo para pressa. Arrume suas malas com calma, olhe metodicamente para ver se não esqueceu uma lembrança favorita debaixo da cama, ou talvez uma lição importante no guarda-roupa – ou a sua escova de dente. E, quando você estiver por aí nesse mundão, por favor, não se esqueça de nós. Não pense duas vezes se quiser voltar e pedir mais informações sobre o caminho, ou só para tomar um café. Eu só queria pedir um favorzinho: por favor, não poste nenhum comentário ou estrelas no TripAdvisor, já que a gerência ainda não sabe se vai receber mais hóspedes no futuro.

E, quando finalmente fizer o check-out, sinta-se muito bem-vindo, filho. Mamãe e papai não veem a hora de conhecer você.

“I will hold you for as long as you like

I’ll love you for the rest of my life.”

(Paul McCartney – Calico Skies)