Tangled / Entrelaçada

“My granny used to work in the shipyard’s rope factory at the beginning of the century. It wasn’t an easy job but, on the other hand, whenever a ship was finally ready at the docks, the workers had the privilege to go on board before anyone else. The rope she had made herself came down from the deck and they had the pleasure of exploring the vessel before the rich passengers embarked on it.”

I started braiding the hair of my dollies. The strings that had come from a forgotten yarn ball were divided into three tight sections of more or less the same thickness. The one on the right went over the middle one, the one on the left went under it and, while the little rag doll got a princess hairdo, I didn’t have to think about the smoke-blackened air, about mum on her knees scrubbing our front step, or about daddy’s whiskey bottle.

When the day came and I had to leave my dolly behind, my fingers left the soft and colorful wool for the rigid fiber of the hemp that came from the Philippines, which I had no idea where was, but that surely existed way beyond the green pastures of Northern Ireland. Wherever it had come from, the string wasn’t fond of being stuck in one place for too long. My agile fingers transformed it in the best ship rope, and the exotic material then embarked on yet another journey. I wondered if, as sailors who have a girlfriend in each port, the rope would also find a girl like me at every stop, fingers a-ready to tend to injuries and stroke sore muscles.

Before leaving, the rope was generous enough to let me have a taste of the adventure that was yet to come. It was my passport to respectfully climb onto the brand new ship’s deck. Then, my fingers, so used to the coarseness of the fiber, tasted the smoothness of mahogany and velvet. After our goodbyes, only one of us reluctantly returned to the factory.

I did not want to stay. While I braided the rope, I dreamed of becoming a Greek Moira and weave my destiny far, far away from there. Or a sort of Rapunzel, finally finding someone not to let my golden hair down to, but who would lend me a hand and help me climb onto the deck.  And leave behind the shipyard, the exhaustion, that future that didn’t belong to me.

But the ship blew its horn and left to never return.

Today I braid my granddaughters’ long and prematurely dyed hair. The luxurious ships have disappeared to give place to oil platforms and other static steel and iron giants, too boring to even attempt floating in salt water. The transatlantic liners don’t dock here anymore, but sometimes I shut my eyes really tight and hear the low pitch of that horn. A high pitch stab in my heart.

*

Entrelaçada

“Minha avó trabalhava na fábrica de cordas para navios do início do século. Não era um emprego fácil mas, em compensação, quando um navio ficava pronto nas docas, eles tinham o privilégio de subir a bordo primeiro. A escada de corda que ela mesma tinha feito descia do deque e os operários tinham o prazer de passear pelo barco antes de os passageiros endinheirados embarcarem.”

Comecei trançando os cabelos das minhas bonecas. Os fios de lã herdados de algum novelo esquecido eram repartidos em três mechas justas, mais ou menos da mesma grossura. A da direita passava por cima da mecha do meio, a da esquerda por baixo dela e, enquanto a bonequinha de pano ganhava penteado de princesa, eu não precisava pensar no ar enegrecido pela fumaça, na mãe esfregando de joelhos o degrau à porta da nossa casa, na garrafa de uísque do pai.

Quando chegou o dia de deixar a boneca de lado, meus dedos trocaram a lã macia e colorida pela fibra rígida do cânhamo, chegada das Filipinas, que eu não sabia onde era, mas que com certeza ia muito além das coxilhas verdes da Irlanda. Seja de onde fosse, ela não gostava de ficar muito tempo em um lugar só, porque meus dedos ágeis a transformavam na melhor corda para embarcações, e lá ia a matéria-prima exótica viajar de novo. E eu ficava imaginando se, como os marinheiros que têm uma namorada em cada porto, a corda também encontraria uma moça como eu em cada parada, dedos prontos para curar machucados e afagar músculos cansados.

Antes de partir, a corda era generosa o bastante para me dar um gostinho da viagem que estava por vir. Ela era meu passaporte para que eu respeitosamente subisse ao deque do transatlântico recém-terminado, e meus dedos tão acostumados à aspereza das fibras provavam a maciez de mognos e veludos. Depois da despedida, só uma de nós voltava relutantemente para a fábrica.

Eu não queria ficar. Enquanto trançava a corda, eu sonhava tomar ares de uma moira grega e tecer o meu próprio destino muito longe dali. Ou, em uma Rapunzel às avessas, encontrar alguém não a me jogar as tranças do alto da torre em busca de socorro, mas que que me estendesse a mão lá do alto do deque. O estaleiro, a exaustão, aquele futuro que não era meu ficando para trás.

Mas o navio tocou a buzina e partiu para nunca mais voltar.

Hoje tranço os longos fios prematuramente tingidos das filhas das minhas filhas. Os transatlânticos luxuosos deram lugar a plataformas de petróleo e outros gigantes estáticos de aço e ferro, enfadonhos demais até para se lançarem à façanha de boiar na água salgada. Os navios não passam mais por aqui, mas quando fecho os olhos bem apertados, ouço aquela buzina grave. Dor aguda no meu coração.

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The day after / O dia seguinte

It is sand, but it might very well be treacle. The legs keep on skidding in the grainy darkness, while he tries to find shelter for the night. He could have tried to dig a burrow, but the freezing wind of the desert whirls around him in a tiny frosty hurricane. The best bet right now is finding a hole or a cave before a famished tongue finds him first.

“But morning will come, and everything will be all right,” he says.

He can almost feel the warmth of the first rays of the dawn going through his shiny armor,  the relief while stretching his legs and claws in the glorious light. But right now he must focus, he must keep moving. Maybe over that mound? He finally sees a hollow between a couple of rocks by a big dune, but the ants got there first. The new neighbors would be minute, but that is certainly a full house, and he doesn’t care for that. He must keep looking.

“The sun will be out soon, and I’ll be fine.”

Oh a nice sunbath and a gentle breeze, no more running around for a little while, the happiness of putting one’s eight feet up and relaxing. He can’t even feel them, numb from the cold. He has been running forever; how long has it been now? Four hours? Eight? The exhaustion keeps on playing tricks on his eyes. Was that a little speckle of light in the blackness?

“Could that possibly be Venus heralding the morning? Maybe Mercury? It can’t be that long now.”

He shivers and plows on, trying to avoid the remains of the less fortunate ones, for whom the night never came to an end. Torn wings, broken limbs, sometimes a soft and moribund buzzing comes down amid the sand and other debris. Trying to cross a graveyard can never be fun, but the problem is that the dead love company, and hungry scaled predators are eagerly waiting to make you join them.

“Must. Keep. Going.”

He finally sees it. First, a pale yellow hue, shortly followed by a healthy yolk-ish tone. Then, an explosion of oranges, and at last the reassurance of a plump half circle in a clear blue sky. This is the desert, folks, there are no larks to sing an ode to the morning, but it doesn’t really matter. Oh, it is finally here! The warmth runs through his body, from head to tail, in a toasty embrace of sunshine. Ah, life can be good. No more running away, no more running… no more moving at all?

That’s funny. At first, he thought his legs were too tired, but now they feel virtually glued to the sand. He tries to pull ahead with his claws, but they only drown deeper into the sand. The black licorice-like shell starts to turn into dark syrup, and all his eight knees buckle.

“No, oh no, this cannot be happening.”

Both claws are already halfway down the sand, quicksand, and unfortunately, he knows what comes next. His tail has never felt so heavy, and what is the point of carrying this kind of weight above one’s head for a lifetime anyway?

“Keep it up, man. Keep. It. Up…”

As the sun starts its long journey across the sky, the scorpion’s chitinous shell cannot withstand the heat. The long curved tail inevitably descends, and the venomous stinger slowly touches his head.

*

O dia seguinte

É areia, mas poderia ser melaço. As pernas insistem em patinar na escuridão granulosa, enquanto ele busca abrigo para passar a noite. Ele poderia tentar cavar uma toca, mas o vento congelante do deserto o envolve em um pequeno furacão glacial. O melhor a se fazer agora é encontrar um buraco ou uma caverna, antes que uma língua faminta o encontre antes.

– Mas logo amanhece, e vai dar tudo certo – ele diz.

Ele quase consegue sentir os primeiros raios do amanhecer penetrando sua armadura brilhante, o alívio de esticar as pernas e pinças à luz gloriosa do Sol. Mas agora precisa se concentrar, e continuar seguindo em frente. Talvez depois daquele morro? Ele finalmente avista um espaço oco entre as pedras, mas as formigas chegaram lá antes. As novas vizinhas seriam minúsculas, mas um é pouco, dois é bom, três mil é demais, e ele não está a fim. A busca continua.

– Daqui a pouco o Sol vem, e tudo se resolve.

Ah, um banho de Sol com uma brisa gentil, não ter mais que sair correndo, a alegria de botar os oito pés para cima e relaxar. Ele nem consegue mais sentir os pés, adormecidos pelo frio. Faz tanto tempo que está correndo! Quatro horas? Oito? Agora a exaustão prega peças em seus olhos. O que é aquele salpicado de luz na escuridão?

– Será que é Vênus anunciando a manhã? Talvez Mercúrio? Agora não vai demorar.

Ele treme e segue em frente, tentando evitar os restos dos menos afortunados, para quem a noite nunca teve fim. Asas rasgadas, membros quebrados, e às vezes um zumbido fraco e moribundo vêm junto com a areia e outros detritos. Tentar cruzar um cemitério nunca é uma tarefa prazerosa, mas o problema é que os mortos adoram companhia, e predadores escamosos e famintos não veem a hora de mandar você para o outro lado.

– Preciso… continuar…

E então ele finalmente vê. Primeiro, um toque tímido de amarelo, seguindo por um tom saudável de gema. Depois, uma explosão de laranjas e, por fim, a esperança de um meio círculo gordo no céu azul. Isso aqui é o deserto, amigos, não há cotovias para improvisar uma ode à manhã, mas não importa. Ah, ela finalmente chegou! O calor percorre o corpo dele, da cabeça à cauda, em um abraço morno de luz. A vida é boa. Chega de fugir, chega de correr… chega de se mexer?

Que estranho. Primeiro ele achou que as pernas estivessem cansadas demais, mas agora elas pareciam grudadas à areia. Ele tenta arrastar o corpo à frente usando as pinças, mas elas só afundam ainda mais. A carapaça de alcaçuz começa a se transformar em uma calda escura, e os oitos joelhos não resistem e vão ao chão.

– Ah, não, não. Isso não pode estar acontecendo.

As duas pinças já estão cobertas de areia, areia movediça, e infelizmente ele sabe o que vem por aí. A cauda nunca lhe pareceu tão pesada, e qual é o sentido de carregar esse peso todo acima da cabeça a vida inteira, hein?

– Segura, cara. Segura…

Enquanto o Sol começa sua longa jornada pelo céu, a carapaça quitinosa do escorpião não consegue suportar o calor. A cauda longa e curva inevitavelmente aponta para baixo, e o ferrão venenoso toca sua cabeça lentamente.

Chocolate can cure up to 480 diseases, specialists say / Chocolate pode curar até 480 doenças, dizem especialistas

Substance found in cocoa beans could help in the treatment of minor illnesses. Nonetheless, when it comes to portions, common sense is still key

MEXICO CITY – After seven years of ongoing research, Mexican researchers have found a substance in the cocoa bean that may be the answer for the stresses of modern life. According to the scientists of the Food Science Department at the University of Montezuma, eating moderate quantities of chocolate daily could help in the treatment of addiction to smartphones, reality show tantrums, fear of the dark, machoism and even CGS (compulsive gossip syndrome), among other 480 minor yet troublesome afflictions.

The substance, named “cortezis felicis” as a tribute to the Spanish conquistador Hernan Cortez, who took the beans from the Aztecs to Europe in the 1500’s, had been studied before, but somehow previous researchers had never been able to link it to the overall feeling of satisfaction we have after having a chocolate bar. “It had always been thought that the sugar mixed with the cocoa was responsible for that fuzzy feeling in your tummy and your heart,” Dr. Coco Delicatessen, food engineer and leader of the study at the UoM explains, “And somehow this little rascal had never been under scrutiny before.” According to Dr. Delicatessen, the substance basically sends a message of happiness to the brain, which then stops “worrying” about less pressing issues, like Kim Kardashians’ latest baby or your neighbours’ new fake designer bag.

Dr. Delicatessen and her team conducted a simple experiment with about 8,000 volunteers of both genders and varied ages, and discovered that, for example, 76% of subjects who ingested at least 50 grams of chocolate a day were less likely to check their Whatsapp messages in the next 30 minutes. Over 85% of men who had just arrived from work refrained from ordering their wives to bring them a cold beer.  An impressive 98% of children who participated in the study didn’t recall suffering from monster in the closetness if consuming at least five Smarties before going to bed. On the other hand, 45% of teenage girls still struggled with justinbiberitis even after devouring up to eight KitKats while listening to horrible music. “We must take the studies further and see if there is a way to maximize the substance’s effect for extreme cases like those,” explains Dr. Kurly Wurrly, a visiting scholar from the Tobler College, in Switzerland. “It surely is a rocky road.”

Although this is great news for chocoholics all over the world, Dr. Delicatessen and her team caution that eating huge amounts of chocolate may actually reverse the “cortezis felicis” effect. People who have no dietary restrictions should limit their daily intake to 100 grams – or 105 grams at the most if the chocolate of choice is Ferrero Rocher, for its serious yumminess. “Tummy will go booboo if the person eats too much chocolate and then the previous symptoms may reoccur on an even higher level. And people may also cry,” warns Dr. Delicatessen.

The team at the UoM is now working on a study to reveal if chocolate would also be effective for treating ingrown toenails, dandruff and evil eye, but results have been inconclusive so far.

*

Chocolate pode curar até 480 doenças, dizem especialistas

Substância encontrada no cacau poderia ajudar no tratamento de simples patologias. No entanto, quando o assunto é quantidade, o bom senso ainda é fundamental

CIDADE DO MÉXICO – Após sete anos de pesquisas contínuas, cientistas mexicanos encontraram uma substância no cacau que pode ser a resposta para os estresses da vida moderna. Segundo os pesquisadores do Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade de Montezuma, o consumo diário de quantidades moderadas de chocolate poderia ajudar no tratamento de vício em smartphones, chiliques de reality show, medo do escuro, machismo e até mesmo SFC (síndrome da fofoca compulsiva), entre outras 480 patologias tratáveis, porém incômodas.

A substância, batizada de “cortezis felicis” em homenagem ao conquistador espanhol Hernan Cortez, que levou o cacau dos astecas para a Europa no século 16, já havia sido estudada antes, mas, por algum motivo, os pesquisadores anteriores nunca foram capazes de ligá-la à sensação generalizada de satisfação que sentimos depois de comer chocolate. “Até então, pensava-se que o açúcar misturado ao cacau era o responsável por aquele sentimento de felicidade na barriga e no coração”, a Doutora Laka Delicatessen, engenheira de alimentos e líder da pesquisa na UM, explica, “E, de alguma maneira, essa substanciazinha levada nunca foi analisada a fundo antes.” De acordo com a Dra. Delicatessen, a substância basicamente envia uma mensagem de felicidade para o cérebro, que então para de se “preocupar” com assuntos menos importantes, como a filha de Kim Kardashian ou a nova bolsa de marca (falsa) da vizinha.

A Dra. Delicatessen e sua equipe conduziram um experimento simples com cerca de 8 mil voluntários de ambos os sexos e idades variadas e descobriram, por exemplo, que 76% dos participantes do estudo que ingeriram pelo menos 50 gramas de chocolate por dia apresentavam uma propensão menor a checar suas mensagens no Whatsapp nos próximos 30 minutos. Mais de 85% dos homens que tinham acabado de chegar do trabalho se contiveram antes de pedir à mulher para trazer uma cerveja gelada. E impressionantes 98% das crianças no estudo não se lembram de sofrer de Transtorno de Monstro Debaixo da Cama (TMDC) se consumissem pelo menos cinco M&Ms antes de irem dormir. Por outro lado, 45% das adolescentes ainda lutavam contra a justinbiberite mesmo depois de devorarem até oito Chokitos enquanto escutavam música de péssima qualidade. “Temos que aprofundar os estudos e checar se existe uma maneira de maximizar o efeito da substância para casos extremos como esse,” explica o Dr. Lollo Suflairis, da Faculdade de Tobler, na Suíça. “Já estamos prevendo trancos e barrancos nesse caminho crocante”.

Apesar da ótima notícia para chocólatras no mundo todo, a Dra. Delicatessen e sua equipe alertam que comer grandes quantidades de chocolate na verdade pode reverter o efeito “cortezis felicis”. Pessoas sem restrições alimentares devem limitar sua ingestão diária a 100 gramas – ou 105 gramas no máximo se o chocolate de escolha for o Ferrero Rocher, por exemplo, devido ao seu alto teor de gostosura. “A barriguinha vai doer se a pessoa comer chocolate demais e, então, os sintomas anteriores podem voltar com ainda mais força. E pode ser que ela chore também,” avisa a Dra. Delicatessen.

A equipe na UM agora está trabalhando em um estudo que busca revelar se o chocolate também poderia ser usado com sucesso no tratamento de unha encravada, caspa e olho gordo, mas os resultados até o momento têm sido inconclusivos.

The ring / O anel

Vincent loved the peaceful and historical atmosphere of graveyards. It gave him room and solitude to think about what really mattered. Anyhow, that is what he liked to tell himself. Actually, there wasn’t much on TV that evening, or in his fridge, and the graveyard was on the way to Babbo Gino, a great pizza joint. Dreaming about the perfect pepperoni/cheese ratio, Vincent could have never pictured coming across into something much less prosaic and way creepier: a hand coming out of a grave.

It wasn’t that decrepit hand you’d remember from cliché horror movies: no putrefied flesh, no yellowish fingernail, no disgusting finger literally holding on by a thread. If this were the 19th century, Vincent would say that feminine hand was as delicate as a little dove, a manicured dove even. The sparkle from the pearly choice of nail varnish was outshone only by a big rock on her finger. Are diamonds a dead girl’s best friend?

What was the right thing to do? Yank it off, shove the hand back into the damp dirt and spend it all on pizza? Just cover it up, protecting the poor girl’s privacy and just move on, be the unsung hero for a day? But when Vincent gave two steps towards the headstone, the hand decided for him.

Well, not the hand, but the voice that come from under the grave.

“Marry me oh dear sir /For I was not happy while alive / My love left me here to die / On my wedding day.

Marry me oh dear sir / For I’m still looking for a groom / To free me from death and the gloom / To come back and make him pay.”

What the hell was going on? As in his fridge, there wasn’t much going on in Vincent’s bedroom either. After Ronda, he had managed to have a couple of relationships, but the first kiss always came with the same bitter aftertaste of the big fat full carb and gluten “no” Vincent received when he had proposed to his high-school sweetheart. Ronda said “no” while he was still on one knee. Ronda said “no” even before taking a peek at the ring. Ronda said “no” and married an estate agent.

He had to admit the past few years had been quite lonely, but marrying somebody he barely knew? He hadn’t even followed the brave new man’s  dating routine: finding a girl on Tinder, stalking her on Facebook, see if she could at least spell correctly in her texts – no, sir, looks are not everything. He was sure that could be arranged, but could the dead text from the afterlife? Skype?

He heard her voice again.

“Marry me oh dear sir / For my beauty shall return / And a great passion shall burn / As you have never seen before.

Marry me oh dear sir / And please take this golden ring / A symbol of love, not only bling / And I’ll leave you wanting more.”

Suddenly, another hand, much like the first one, emerged from the black dirt, the open palm offering a thick gold band.

That girl could be a bit straight-forward, but was definitely prepared. Vincent took a look at the portrait in sepia at the headstone. Wavy locks, full lips, eyes with the just right amount of mischief, as if begging him to open the brooch that hid the collar of her blouse – and hopefully her chastity.

“Marry me oh dear sir / And bring me back to the living / My love is strong and forgiving / And I’ll own you with my life.

Marry me oh dear sir / I cannot wait any longer / My desire is growing stronger / I just want to be your wife.”

It was decision time. What if another guy came through the graveyard and grabbed the ring before he did? After all, Babbo Gino was extremely popular. Besides, that could be a metaphor for the Vincent he had always wanted to be: a Vincent who seizes great opportunities, a Vincent who lives life to its fullest, a Vincent who orders supersized fries. A Vincent who grabs a wedding ring and gets married right here, right now.

Vincent grabbed the wedding band and stuck it in his finger. What now? He decided it would be quite romantic to lean over and kiss his bride’s hand to seal the deal, but his lips didn’t even have the chance to touch the cold blueish skin. Both hands grabbed his head and started the slow and sweaty process of dragging a grown man six feet under. Gold band and all.

“You’ve married me oh dear sir / And now I’m free to drink and dance / Wasn’t looking for romance / But I’m sure you’re a great guy.

You’ve married me oh dear sir / And didn’t even know my name/ Male desperation is quite lame / So I shall live and you shall die.”

That night, Babbo Gino got a special order. Double pepperoni and cheese for the girl in the wedding dress.

*

O anel

Vincent adorava o clima cheio de paz e história dos cemitérios. Ali ele tinha o espaço e a solidão necessários para pensar naquilo que realmente importava. Bom, pelo menos era isso que Vincent gostava de dizer a ele mesmo. Na verdade, não tinha nada na TV naquela noite, nem na geladeira dele, e o cemitério ficava no meio do caminho para a Babbo Gino, uma pizzaria incrível. Já sonhando com a proporção perfeita de queijo e pepperoni, Vincent nem imaginava dar de cara com uma coisa bem menos prosaica e muito mais assustadora: uma mão saindo de uma sepultura.

Não era aquela mão decrépita que a gente se lembra de filmes de horror bem cliché: nada de tecido putrificado, nem unha amarelada, nem um único dedão nojento dependurado ali por um triz. Se estivéssemos no século 19, Vincent diria que aquela mão feminina era tão delicada quanto uma pombinha – ou até mesmo uma pomba de unhas feitas. O brilho do esmalte perolado só perdia para o fulgor daquela pedrona preciosa no anelar. Os diamantes também são os melhores amigos das garotas mortas?

O que era a coisa certa a fazer? Arrancar o anel com tudo, enfiar a mão de volta para a terra ainda úmida e gastar tudo em pizza? Cobrir anel, mão e tudo mais para proteger a privacidade da coitada da moça e seguir em frente, e ser o herói desconhecido do dia? Mas quando Vincent deu mais dois passos em direção à lápide, a mão decidiu por ele.

Bom, não a mão, mas a voz que veio lá da tumba.

“Case-se comigo, ó senhor / Pois quando viva fui desgraçada / E pelo meu amor abandonada / No dia do meu casamento.

Case-se comigo, ó senhor / Pois ainda procuro um marido / Meu amor por ti jamais será olvido / E quero me vingar daquele jumento.”

Mas o que era aquilo? Assim como em sua geladeira, a vida amorosa de Vincent também andava bem vazia. Depois de Ronalda, ele havia tido alguns relacionamentos, mas o primeiro beijo sempre vinha com o mesmo gosto amargo do “não” integral, com gordura e com glúten, que Vincent levou ao pedir em casamento sua namoradinha de colégio. A Ronalda disse “não” quando ele ainda estava apoiado sobre um joelho. A Ronalda disse “não” mesmo antes de dar uma olhadinha no anel. A Ronalda disse “não” e se casou com um corretor de imóveis.

Ele tinha que admitir que os últimos anos tinham sido bem solitários, mas se casar com alguém que ele mal conhecia? Ele nem havia seguido a rotina do moçoilo namoradoiro moderno: achar uma menina no Tinder, perseguir a coitada no Facebook, ver se ela pelo menos não cometia erros demais de ortografia ao mandar uma mensagem no celular – pois é, e você achava que aparência era tudo? Ele tinha certeza de que tudo isso poderia ser planejado, mas será que os mortos mandavam mensagens de texto do lado de lá? Será que o Skype funcionava no além?

Ele ouviu a voz dela de novo.

“Case-se comigo, ó senhor / Pois minha beleza voltará / E uma grande paixão queimará / Dessas que você nunca viu antes.

Case-se comigo, ó senhor / E tome para si esse anel de ouro / Meu amor será o maior tesouro / E minha devoção por ti, abundante.”

De repente, a outra mão, bem parecida com a primeira, emergiu da terra preta, a palma aberta oferecendo uma aliança grossa de ouro.

Aquela moça podia ser um pouco avançadinha, mas com certeza estava preparada. Vincent deu uma olhada para o retrato em sépia na lápide. Cabelos levemente cacheados, lábios carnudos, olhos com a quantidade exata de safadeza, como se implorando para que ele abrisse o broche que escondia a gola da blusa dela – e, com sorte, sua castidade.

“Case-se comigo, ó senhor / E me traga de volta para os vivos / Por ti meu amor sempre será explosivo / Me tome em seus braços quando quiser.

Case-se comigo, ó senhor / Pois já não posso mais esperar / A ânsia por ti sou incapaz de controlar / Só quero ser a sua mulher.”

Era a hora de tomar uma decisão. E se outro cara passasse ali pelo cemitério e pegasse a aliança antes dele? Afinal, a Babbo Gino era uma pizzaria famosíssima. Além disso, aquela situação poderia ser uma metáfora para o Vincent que ele sempre quisera ser: um Vincent que aproveita as oportunidades, um Vincent que vive a vida ao máximo, um Vincent que pede McFritas tamanho Mega. Um Vincent que pega uma aliança e se casa aqui e agora.

Vincent pegou a aliança e a enfiou no dedo. E agora? Ele decidiu que seria bem romântico se agachar e beijar a mão da noiva para fechar negócio, mas seus lábios nem tiveram a chance de tocar aquela pele azulada. As duas mãos agarraram a cabeça dele e começaram o processo lento e trabalhoso de arrastar um homem inteiro para sete palmos abaixo da terra. Com aliança de ouro e tudo.

“Você se casou comigo, ó senhor / E agora estou livre para beber e dançar / Eu não queria mesmo me amarrar / Mas sei que encontrarás uma garota de sorte.

“Você se casou comigo, ó senhor / E nem ao menos sabia o meu nome / Desespero assim não é coisa de homem / Então vou viver a vida e você, a morte.”

Naquela noite, o pizzaiolo do Babbo Gino recebeu um pedido especial. Pepperoni com queijo duplo para a menina do vestido de noiva.

Unrevised / No original

For Eliseu, writing had always come easily. His stories caught everyone’s attention at school: he was the brightest student in writing class, and had the Portuguese teachers in tears while he proudly read that week’s piece for the class. Eliseu was always ready for the bank holidays as well: he came up with sensitive poems for Mother’s Days, patriotic sonnets for Independence Day – he even pulled out of the hat an ode to the Japanese immigration, without ever having touched a piece of sushi his entire life.

At home it was the same thing. He didn’t only make parents and uncles and aunts proud with the grades achieved in Portuguese on his report card, but was also the official narrator of the family vacations. Every year, full of confidence, he told the story of their summer adventures in some sleepy town in the countryside, telling it in a way that gave the impression his family had spent those days in Saint Tropez.

But where did so much imagination, such style and intimacy with the text come from? “Dunno”, Eliseu replied, all false modesty, “The words simply come to me.” And that bit was true indeed: Eliseu sat at the desk with his little notebook or, later on, in front of the luminous sheet of paper on the computer and, in a trance-like state, simply received words, paragraphs and whole stories. Events and characters sprouted like grass. “I never have to rewrite anything”, he used to say proud of himself, “I only check the spelling briefly, but nowadays, with the spellcheck in the computer, I don’t even have to do that anymore. The piece just comes ready to me.”

When the time came to choose a course at university, he didn’t have to think much. Journalism was the obvious choice. Ok, it wasn’t the same as embracing fiction on a daily basis, but at least it would pay the bills until he became a great novelist.

The newspaper editors were so impressed by Eliseu’s style that they started publishing his articles unrevised. “Skip the review!” they shouted with the same enthusiasm of the famous “Stop the press!”. If the article was too long, they cut off the ads. If the article was too short, but equally brilliant, it was the intern’s job to use his imagination and fill the blank space with something. Photographers and designers had to do brain surgery so that Eliseu’s articles reined absolute on the page.  By skipping these steps in production, that day’s section was ready earlier, and everyone could go to the pub earlier too. Eliseu was the reporter of dreams.

Sometimes he even tried to improve the line from the fishmonger who had been mugged, but the article insisted on fishing back the simple words of one who had spent a life by the sea. On other occasions, the politician wasn’t that cheeky, but the text made it a point to show that wicked smile at the corner of his lips. Even when Eliseu preferred to use a comma so that the reader could take a breath amidst an explosive piece on the first page, the text thought it was better to tell it all at once, spitting out the words like a machine-gun in automatic mode.

Sometimes Eliseu felt his hands were tied even while he typed, but why should he worry about this successful partnership? He became a special reporter at the paper, won a prestigious journalism award with a story about the Amazon that the text insisted on also telling in an indigenous language, published a dynamite interview on a famous magazine in which the words pushed it a bit, but managed to show a rather prudish side of an ex-porn star, and got a contract for a book of short stories in which he had planned to tell how life was through the eyes of a homeless kid, but  the text decided to transform into pulp fiction. It was a best-seller.

Eliseu did his best to push the last sentence to the next paragraph, but the text wouldn’t let him. He wanted to check if a “however” would sound better than a “yet”, but the mouse wouldn’t move. He could barely wait to erase an obviously unnecessary bit about the need of having five portions of fruit and veg a day, but the “Delete” key wouldn’t work.

He started arriving late at the paper, dragging himself along the cubicles, didn’t feel like going to the editorial meetings and opened the white screen on Word with the boredom of a guy who needs to write more than 300 words about wellies making a comeback. He even tried to get wasted before getting to the newsroom, but the articles always turned out coherent, informative, impartial, intriguing and consistent with all grammar and spelling rules. The wellies’ sales went up.

Feeling desperate, Eliseu looked for support groups, such as Writers Anonymous, but after showing his writing to his colleagues, who were cursed by writing blocks, even the most jealous ones felt compelled to kneel before such literary jewels. He also tried a psychoanalyst, but after catching himself writing a 400-page volume entitled “My Life and I” when the doctor asked when all that had started, he abandoned the therapist’s couch for good.

He wasn’t even able to write a simple note which expressed what his heart truly desired. Instead of “Won’t be home for dinner tonight, mum”, he was surprised by a “Mother, tonight you shall rest your exquisite hands and culinary talent, as your son will search for gastronomical inspiration somewhere else.” His mum just loved finding these little gifts around the kitchen, but Eliseu felt like eating an entire roll of paper towel.

There was only one way of ending this story of abuse once and for all: Eliseu wasn’t going to turn his computer on anymore. Papers, pencils, pens, markers and even finger paint were banished. Shop receipts, bus tickets, movie tickets, everything had to go. He emptied his desk at home and at work, and not even the paper pad where his mum wrote down the weekly shopping list survived. He felt like Goebbels himself by setting his own library on fire, but it was a necessary evil. Phone book? Shredded. Napkins? Into the bin. He only didn’t start ripping money because he feared getting arrested for it, but started using credit cards only, scared of starting to write religious chain messages on a one pound note.

The editors didn’t like it one bit, seeing their best reporter looking at that dead screen with his arms crossed, and Eliseu soon got fired. His name was no longer a synonym of success in the newsrooms across the country and the last print of his book of short stories was sold out, never to be reedited again. The invitations to talk shows became more and more sparse, until they stopped altogether. His mum never received another note until the day of her death, which didn’t even make the obituary section in the paper.

Eliseu was found in his bedroom. On the walls, an epic poem about an illiterate hero, written in moments of weakness with the coal stolen from his neighbour’s barbecue grill. His suicide note was recorded on a cassette tape.

*

No original

Para Eliseu, a escrita sempre tinha vindo fácil. Suas histórias chamavam a atenção desde os tempos de escola: ele brilhava nas aulas de redação, as professoras de português em lágrimas enquanto ele lia o texto da semana todo orgulhoso em frente à classe. Eliseu também era o queridinho dos feriados: um poeminha sensível para um Dia das Mães aqui, um soneto ufanista para um Sete de Setembro ali – até uma ode ao Japão para comemorar o centenário da imigração ele escreveu, mesmo sem ter nunca comido um sushi na vida.

Em casa era a mesma coisa. Além de deixar os pais e tios orgulhosos com as notas de Língua Portuguesa no boletim, Eliseu também era o narrador oficial das férias da família. Todo ano, ele exibia de peito estufado as aventuras do verão em Águas de Lindoia, devidamente impressas em formulário contínuo, e recontadas de um jeito que a família tinha a impressão de ter passado aqueles dias em Saint Tropez.

Mas de onde vinha tanta imaginação, tanto estilo, tanta intimidade com o texto? “Não sei,” respondia Eliseu, com falsa modéstia, “As palavras simplesmente vêm para mim.” E essa parte era verdade mesmo: Eliseu se sentava à mesa com seu caderninho ou, mais tarde, em frente ao papel luminoso do computador e, quase num transe de Chico Xavier, simplesmente recebia palavras, parágrafos e histórias inteiras. Acontecimentos e personagens brotavam nas páginas como chuchu na cerca. “Nunca reescrevo nada,” ele se orgulhava, “Só dou uma olhadinha na ortografia, mas, hoje em dia, com o corretor automático do computador, não preciso fazer nem isso. O texto já vem pronto.”

Quando chegou a hora de prestar vestibular, nem precisou pensar muito. Jornalismo era a escolha óbvia. Tudo bem que não era a mesma coisa que se lançar à ficção todos os dias, mas pelo menos pagaria as contas até ele se tornar um grande romancista.

Os editores ficavam tão impressionados com o estilo de Eliseu que passaram a publicar suas matérias no original. “Pode pular a revisão!”, eles gritavam com o mesmo entusiasmo do famoso “Parem as máquinas!”. Se a matéria estava comprida demais, eles mandavam cortar um anúncio da página. Se ficava muito curta, mas igualmente brilhante, o estagiário que se virasse para encher linguiça com uma notinha qualquer. Fotógrafos e diagramadores faziam das lentes e do projeto gráfico tripas coração para que os textos de Eliseu reinassem absolutos nas páginas. Pulando essas etapas de produção, o caderno fechava mais cedo, e todo mundo podia ir mais cedo para o bar também. Eliseu era o repórter dos sonhos.

Às vezes, ele bem que tentava melhorar a fala do peixeiro que tinha sido assaltado, mas o texto insistia em pescar de volta as palavras simples de quem viveu no porto a vida inteira. Em outras, o político nem era tão cara de pau assim, mas o texto tinha porque tinha que mostrar aquele sorrisinho safado no canto dos lábios.  Mesmo quando Eliseu preferia usar uma vírgula a mais para que o leitor retomasse o fôlego em uma matéria explosiva de primeira página, o texto achava que era melhor mesmo contar tudo de uma vez, cuspindo as frases como uma metralhadora no automático.

Eliseu de vez em quando se sentia de mãos atadas mesmo quando estava digitando, mas por que se preocupar com essa parceria de sucesso? Eliseu virou repórter especial no jornal, ganhou um Prêmio Esso com uma reportagem na Amazônia que o texto teimou em relatar também em Tupi, emplacou uma entrevista nas páginas amarelas de uma revista famosa em que o texto apelou um pouco, mas conseguiu mostrar um viés totalmente pudico de uma ex-atriz de pornochanchadas, e até fechou contrato para um livro de crônicas em que tinha imaginado contar a vida através dos olhos de um menino de rua, mas que o texto decidiu transformar em histórias de botequim. Vendeu horrores.

Eliseu até tentava passar a última frase para o parágrafo seguinte, mas o texto não deixava as duas sentenças se desgrudarem. Queria ver se um “entretanto” ficava melhor que um “porém”, mas o mouse emperrava. Estava doido para apagar um trecho visivelmente desnecessário sobre a necessidade de comer cinco porções de frutas e legumes ao dia, mas o Delete não funcionava.

Passou a chegar mais tarde ao jornal, se arrastando por entre as baias, a comparecer às reuniões de pauta de má vontade, a abrir a tela branca do Word com aquele bode de quem precisa fazer render uma nota sobre o retorno fashion das galochas. Até encher a cara antes de ir para a redação ele tentou, mas os textos saíam sempre coerentes, informativos, imparciais, intrigantes e condizentes com as novas regras da Reforma Ortográfica. E a venda de galochas subiu.

Desesperado, Eliseu procurou grupos de apoio, como os Escritores Anônimos mas, ao mostrar seus textos para os companheiros, amaldiçoados pelo bloqueio de escrita, até os mais invejosos se ajoelhavam diante de tais joias literárias. Também chegou a recorrer a um psicanalista, mas depois de se pegar escrevendo um volume de 400 páginas intitulado “Minha vida e eu” quando o médico perguntou como tudo aquilo começou, abandonou de vez o divã.

Não era capaz de escrever nem um simples bilhete que realmente expressasse o que seu coração desejava. Em vez de “Hoje não vou jantar em casa, mãe”, saía um “Mãe, pode colocar para lavar o avental todo sujo de ovo. Esta noite seu filho vai buscar alento gastronômico em outras paragens e a senhora pode descansar as mãos de fada.” A mãe adorava encontrar esses mimos na cozinha, mas Eliseu tinha vontade era de engolir um rolo inteiro de papel toalha.

Só havia uma maneira de acabar com essa história de ser pau mandado por escrito: Eliseu não ia mais ligar o computador. Papéis, lápis, canetas, pincéis atômicos e até guache para pintura a dedo também foram banidos. Recibos de compras, bilhetes de ônibus, ingressos de cinema, tudo desapareceu. Esvaziou a escrivaninha em casa e no trabalho, e nem o bloquinho de anotações onde a mãe fazia a lista de compras sobreviveu. Ficou se sentindo o próprio Goebbels ao incendiar sua biblioteca, mas era um mal necessário. Lista telefônica? Picotada. Guardanapos? Lixo. Só não rasgou dinheiro porque tinha medo de ir preso, mas passou a andar só com cartões de crédito, com medo de começar a escrever aqueles textos da corrente por Jesus numa nota de dois reais.

Os editores não gostaram nada de ver seu repórter mais brilhante encarando aquela tela morta de braços cruzados, e Eliseu logo foi demitido. Seu nome deixou de ser sinônimo de sucesso nas redações por todo o país e a última tiragem de seu livro de crônicas havia se esgotado, mas o volume nunca chegou a ser reeditado. Os convites para programas de entrevistas foram rareando até cessarem de vez. A mãe nunca mais recebeu bilhete algum até o dia da morte dela, que não ganhou sequer uma nota na página de óbitos do jornal.

Eliseu foi encontrado em seu quarto. Nas paredes, uma epopeia sobre um certo herói analfabeto, escrita em momentos de fraqueza com um pedaço de carvão surrupiado da churrasqueira do vizinho. Seu bilhete de suicídio ficou gravado em uma fita K-7.

Where the bad jokes go / Para onde vão as piadas ruins

“Open mic night” at the Crescent Arts Centre, 9:30 pm.

The show is about to start. I would say “no pressure”, but everyone knows that a good joke lives forever.

The successful stand-up comedian will raise a glass to his own brilliance and maybe even score a groupie or two afterwards, but while he secretly wipes the brow and relief with a handkerchief, the good joke starts a journey of a lifetime. It soars above the laughter like a hot air balloon and, as an actor who gets his own star on the Hollywood Walk of Fame, it prepares itself for posterity, for the good joke is never told only once. For moral reasons, maybe it should show some kind of gratitude for its creator, the “joke teller zero”, but it doesn’t matter anymore. The good joke doesn’t linger in the past, it lives for the future, for the next person who will pronounce its prelude to shine once more: “Have you ever heard the one about the…?”.

That is, if we hear a good joke tonight.

For the bad jokes, the microphone is a cliff. The fall is just long enough to make them feel sorry for themselves. They land flat on the stage, for their fate is much different from the good jokes’ comic heaven. The bad jokes are sent off to a very grumpy limbo, where clichés meet their quintuplets for the hundredth time, priests, ministers and rabbis travel coach on a plane that never lands and bad timing never quite knows when to get the hell out of there. With time, the cringe factor wears off, but the bad jokes are branded with the unfunny scarlet letter. The bad joke also lives forever, but for the wrong reasons.

That is, unless a miracle happens.

Maybe that guy’s boss didn’t make it to work today, or that girl finally passed that stupid driving test, or someone simply couldn’t be bothered to think of a better reason for the chicken to cross the road, and it happens: the bad joke gets a laugh. Laughter loves company (except for the evil laugh) and soon the theatre is bursting with them. The bad joke, its faith renewed, bounces off the stage and takes off on its own flight. It doesn’t mind taking a minister or a chicken or two along for the ride, as the bad joke does not seek fame or fortune like its hilarious cousin. For now the bad joke shall accept itself just the way it is. With a smile.

*

Para onde vão as piadas ruins

“Noite do microfone aberto” no Crescent Arts Centre, 21h30.

O show está prestes a começar. Eu até diria para o cara relaxar, mas todo mundo sabe que uma boa piada dura para sempre.

O comediante bem-sucedido vai fazer um brinde à sua própria inteligência e até ganhar uma ou outra admiradora depois do show, mas enquanto ele enxuga a testa e o alívio em segredo, a boa piada começa a viagem mais alucinante de sua vida. Ela sobe e plana sobre as risadas como um balão de ar quente. Como um ator que ganha a própria estrela na Calçada da Fama em Hollywood, ela se prepara para a posteridade, já que uma boa piada não é contada apenas uma única vez. Por razões morais, talvez ela devesse demonstrar algum tipo de gratidão ao seu criador, o desbravador de palcos, mas agora isso já não importa. A boa piada não se prende ao passado; ela vive no futuro, e anseia pela próxima pessoa que pronunciará seu prelúdio para brilhar mais uma vez: “Você já ouviu aquela do…?”

Isto é, se o cara contar uma piada boa esta noite.

Para as piadas ruins, o microfone é um penhasco. A queda é exatamente comprida o bastante para que elas sintam pena delas mesmas. Elas aterrissam de barrigada no palco, já que seu destino é muito diferente daquele do céu cômico das piadas boas. As piadas ruins são mandadas para um limbo muito mal-humorado, onde clichês encontram seus quadrigêmeos pela enésima vez, o padre, o papagaio e a sogra viajam de classe econômica num voo que nunca chega a lugar algum, e o final contado fora de hora nunca sabe muito bem quando ir embora dali. Com o tempo, o mal-estar passa, mas as piadas ruins são marcadas para sempre com uma letra escarlate bem sem graça. A piada ruim também dura para sempre, mas pelos motivos errados.

Isto é, a não ser que um milagre aconteça.

Talvez o chefe daquele cara não tenha ido trabalhar hoje, ou aquela menina finalmente passou na prova, ou alguém simplesmente não podia se dar ao trabalho de pensar numa explicação melhor para o cachorro entrar na igreja, e então acontece: a piada ruim ganha uma risada. O riso adora companhia (com exceção da risada malvada), e logo o teatro vem abaixo. A piada ruim, com sua fé renovada, quica do palco e decola em seu próprio voo. Ela não se importa em levar um padre ou uma sogra ou duas na viagem já que, ao contrário de sua prima sensacional, a piada ruim não busca fama nem fortuna. Por enquanto, a piada ruim vai se aceitar do jeito que é. E com um sorriso no rosto.

The circle / O círculo

Come, my dear friend. Don’t be afraid. You don’t need a warning in a dream or a baptism of blood to join our circle. Just a story to tell.

You may hold hands if you wish.

You may also save mandrakes, bezoars and rosemary for another full moon, for this is not an incantation. We are gathered here today to summon them to life.

The order is not important, as words are not greedy. They have to power to sense who needs to come out first. A woman who got married on a Thursday and never played the piano again. A mother eager to close her eyes after the funeral of her only daughter.  A grandpa waiting to marmalade toast with his grandson, for childhood ends on a blink of a paragraph. They all need to speak, and now. So read.

They had a taste of life on the paper, but only feel truly alive when rolling off the tongue.  Many dread waking up from their dream of cellulose by our bittersweet kiss, being forced to go through all that again. But there is nothing like the feel of ink flowing through your veins.

Even if only for a few minutes, they leave dusty drawers and expertly locked chests tucked away somewhere in the mind and live among us. Happy characters pray every detail will play out itself exactly like the last time. The less fortunate ones hope fate materialises, even if in the shape of a comma, and takes pity on their sad endings.

They are here until words are no longer necessary, until all that needed to be said has been told. They can sense the thoughtfully carved sentences, the climax that will make their journey be remembered. And then it comes. Looks don’t mean a thing. It is so tiny one could barely notice it and its great power to send them back. They want to linger in that special moment when no one else’s story mattered, but only theirs. But it is too late now. It’s here. Full stop.

*

O círculo

Venha, meu amigo. Não tenha medo. Você não precisa de um aviso vindo num sonho, nem de um batismo de sangue para se juntar ao nosso círculo. Apenas uma história para contar.

Vocês podem dar as mãos, se quiserem.

Você também pode guardar mandrágoras, bezoares e o alecrim para outra lua cheia, pois isso aqui não é um encantamento. Estamos reunidos para trazê-los de volta à vida.

A ordem não importa, já que palavras não são gananciosas. Elas têm o poder de sentir quem precisa vir primeiro. Uma mulher que se casou numa quinta-feira e nunca mais tocou piano. Uma mãe ansiosa para fechar os olhos depois do enterro da única filha. Um avô esperando para passar geleia na torrada para o neto, já que a infância pode acabar num piscar de parágrafo. Todos eles precisam falar, e tem que ser agora. Então, leia.

Eles já sentiram o gosto da vida no papel, mas só se sentem realmente vivos ao escorregarem pela nossa língua. Muitos temem acordar de seu sonho de celulose com o nosso beijo agridoce e serem forçados a passar por tudo aquilo de novo. Mas não há nada como a sensação da tinta pulsando nas veias.

Mesmo que apenas por alguns minutos, eles deixam gavetas empoeiradas e baús trancados em algum lugar da mente, e vivem entre nós. Personagens felizes rezam para que cada detalhe seja reproduzido exatamente como da última vez. Os menos afortunados pedem que a esperança se materialize, mesmo que em forma de vírgula, e se compadeça de seus finais infelizes.

Os personagens ficam entre nós até que as palavras não são mais necessárias, até que tudo que tinha que ser contado já foi dito. Eles conseguem sentir as frases cuidadosamente entalhadas, o clímax que tornará suas jornadas inesquecíveis. E então ele vem. Aparência não é nada. Ele é tão pequeno que passa quase despercebido, assim como seu grande poder de mandar todos de volta. Eles querem ficar para sempre naquele momento tão especial, quando a história de mais ninguém importava, apenas a deles. Mas agora é tarde demais. Ele chegou. Ponto final.