The ring / O anel

Vincent loved the peaceful and historical atmosphere of graveyards. It gave him room and solitude to think about what really mattered. Anyhow, that is what he liked to tell himself. Actually, there wasn’t much on TV that evening, or in his fridge, and the graveyard was on the way to Babbo Gino, a great pizza joint. Dreaming about the perfect pepperoni/cheese ratio, Vincent could have never pictured coming across into something much less prosaic and way creepier: a hand coming out of a grave.

It wasn’t that decrepit hand you’d remember from cliché horror movies: no putrefied flesh, no yellowish fingernail, no disgusting finger literally holding on by a thread. If this were the 19th century, Vincent would say that feminine hand was as delicate as a little dove, a manicured dove even. The sparkle from the pearly choice of nail varnish was outshone only by a big rock on her finger. Are diamonds a dead girl’s best friend?

What was the right thing to do? Yank it off, shove the hand back into the damp dirt and spend it all on pizza? Just cover it up, protecting the poor girl’s privacy and just move on, be the unsung hero for a day? But when Vincent gave two steps towards the headstone, the hand decided for him.

Well, not the hand, but the voice that come from under the grave.

“Marry me oh dear sir /For I was not happy while alive / My love left me here to die / On my wedding day.

Marry me oh dear sir / For I’m still looking for a groom / To free me from death and the gloom / To come back and make him pay.”

What the hell was going on? As in his fridge, there wasn’t much going on in Vincent’s bedroom either. After Ronda, he had managed to have a couple of relationships, but the first kiss always came with the same bitter aftertaste of the big fat full carb and gluten “no” Vincent received when he had proposed to his high-school sweetheart. Ronda said “no” while he was still on one knee. Ronda said “no” even before taking a peek at the ring. Ronda said “no” and married an estate agent.

He had to admit the past few years had been quite lonely, but marrying somebody he barely knew? He hadn’t even followed the brave new man’s  dating routine: finding a girl on Tinder, stalking her on Facebook, see if she could at least spell correctly in her texts – no, sir, looks are not everything. He was sure that could be arranged, but could the dead text from the afterlife? Skype?

He heard her voice again.

“Marry me oh dear sir / For my beauty shall return / And a great passion shall burn / As you have never seen before.

Marry me oh dear sir / And please take this golden ring / A symbol of love, not only bling / And I’ll leave you wanting more.”

Suddenly, another hand, much like the first one, emerged from the black dirt, the open palm offering a thick gold band.

That girl could be a bit straight-forward, but was definitely prepared. Vincent took a look at the portrait in sepia at the headstone. Wavy locks, full lips, eyes with the just right amount of mischief, as if begging him to open the brooch that hid the collar of her blouse – and hopefully her chastity.

“Marry me oh dear sir / And bring me back to the living / My love is strong and forgiving / And I’ll own you with my life.

Marry me oh dear sir / I cannot wait any longer / My desire is growing stronger / I just want to be your wife.”

It was decision time. What if another guy came through the graveyard and grabbed the ring before he did? After all, Babbo Gino was extremely popular. Besides, that could be a metaphor for the Vincent he had always wanted to be: a Vincent who seizes great opportunities, a Vincent who lives life to its fullest, a Vincent who orders supersized fries. A Vincent who grabs a wedding ring and gets married right here, right now.

Vincent grabbed the wedding band and stuck it in his finger. What now? He decided it would be quite romantic to lean over and kiss his bride’s hand to seal the deal, but his lips didn’t even have the chance to touch the cold blueish skin. Both hands grabbed his head and started the slow and sweaty process of dragging a grown man six feet under. Gold band and all.

“You’ve married me oh dear sir / And now I’m free to drink and dance / Wasn’t looking for romance / But I’m sure you’re a great guy.

You’ve married me oh dear sir / And didn’t even know my name/ Male desperation is quite lame / So I shall live and you shall die.”

That night, Babbo Gino got a special order. Double pepperoni and cheese for the girl in the wedding dress.

*

O anel

Vincent adorava o clima cheio de paz e história dos cemitérios. Ali ele tinha o espaço e a solidão necessários para pensar naquilo que realmente importava. Bom, pelo menos era isso que Vincent gostava de dizer a ele mesmo. Na verdade, não tinha nada na TV naquela noite, nem na geladeira dele, e o cemitério ficava no meio do caminho para a Babbo Gino, uma pizzaria incrível. Já sonhando com a proporção perfeita de queijo e pepperoni, Vincent nem imaginava dar de cara com uma coisa bem menos prosaica e muito mais assustadora: uma mão saindo de uma sepultura.

Não era aquela mão decrépita que a gente se lembra de filmes de horror bem cliché: nada de tecido putrificado, nem unha amarelada, nem um único dedão nojento dependurado ali por um triz. Se estivéssemos no século 19, Vincent diria que aquela mão feminina era tão delicada quanto uma pombinha – ou até mesmo uma pomba de unhas feitas. O brilho do esmalte perolado só perdia para o fulgor daquela pedrona preciosa no anelar. Os diamantes também são os melhores amigos das garotas mortas?

O que era a coisa certa a fazer? Arrancar o anel com tudo, enfiar a mão de volta para a terra ainda úmida e gastar tudo em pizza? Cobrir anel, mão e tudo mais para proteger a privacidade da coitada da moça e seguir em frente, e ser o herói desconhecido do dia? Mas quando Vincent deu mais dois passos em direção à lápide, a mão decidiu por ele.

Bom, não a mão, mas a voz que veio lá da tumba.

“Case-se comigo, ó senhor / Pois quando viva fui desgraçada / E pelo meu amor abandonada / No dia do meu casamento.

Case-se comigo, ó senhor / Pois ainda procuro um marido / Meu amor por ti jamais será olvido / E quero me vingar daquele jumento.”

Mas o que era aquilo? Assim como em sua geladeira, a vida amorosa de Vincent também andava bem vazia. Depois de Ronalda, ele havia tido alguns relacionamentos, mas o primeiro beijo sempre vinha com o mesmo gosto amargo do “não” integral, com gordura e com glúten, que Vincent levou ao pedir em casamento sua namoradinha de colégio. A Ronalda disse “não” quando ele ainda estava apoiado sobre um joelho. A Ronalda disse “não” mesmo antes de dar uma olhadinha no anel. A Ronalda disse “não” e se casou com um corretor de imóveis.

Ele tinha que admitir que os últimos anos tinham sido bem solitários, mas se casar com alguém que ele mal conhecia? Ele nem havia seguido a rotina do moçoilo namoradoiro moderno: achar uma menina no Tinder, perseguir a coitada no Facebook, ver se ela pelo menos não cometia erros demais de ortografia ao mandar uma mensagem no celular – pois é, e você achava que aparência era tudo? Ele tinha certeza de que tudo isso poderia ser planejado, mas será que os mortos mandavam mensagens de texto do lado de lá? Será que o Skype funcionava no além?

Ele ouviu a voz dela de novo.

“Case-se comigo, ó senhor / Pois minha beleza voltará / E uma grande paixão queimará / Dessas que você nunca viu antes.

Case-se comigo, ó senhor / E tome para si esse anel de ouro / Meu amor será o maior tesouro / E minha devoção por ti, abundante.”

De repente, a outra mão, bem parecida com a primeira, emergiu da terra preta, a palma aberta oferecendo uma aliança grossa de ouro.

Aquela moça podia ser um pouco avançadinha, mas com certeza estava preparada. Vincent deu uma olhada para o retrato em sépia na lápide. Cabelos levemente cacheados, lábios carnudos, olhos com a quantidade exata de safadeza, como se implorando para que ele abrisse o broche que escondia a gola da blusa dela – e, com sorte, sua castidade.

“Case-se comigo, ó senhor / E me traga de volta para os vivos / Por ti meu amor sempre será explosivo / Me tome em seus braços quando quiser.

Case-se comigo, ó senhor / Pois já não posso mais esperar / A ânsia por ti sou incapaz de controlar / Só quero ser a sua mulher.”

Era a hora de tomar uma decisão. E se outro cara passasse ali pelo cemitério e pegasse a aliança antes dele? Afinal, a Babbo Gino era uma pizzaria famosíssima. Além disso, aquela situação poderia ser uma metáfora para o Vincent que ele sempre quisera ser: um Vincent que aproveita as oportunidades, um Vincent que vive a vida ao máximo, um Vincent que pede McFritas tamanho Mega. Um Vincent que pega uma aliança e se casa aqui e agora.

Vincent pegou a aliança e a enfiou no dedo. E agora? Ele decidiu que seria bem romântico se agachar e beijar a mão da noiva para fechar negócio, mas seus lábios nem tiveram a chance de tocar aquela pele azulada. As duas mãos agarraram a cabeça dele e começaram o processo lento e trabalhoso de arrastar um homem inteiro para sete palmos abaixo da terra. Com aliança de ouro e tudo.

“Você se casou comigo, ó senhor / E agora estou livre para beber e dançar / Eu não queria mesmo me amarrar / Mas sei que encontrarás uma garota de sorte.

“Você se casou comigo, ó senhor / E nem ao menos sabia o meu nome / Desespero assim não é coisa de homem / Então vou viver a vida e você, a morte.”

Naquela noite, o pizzaiolo do Babbo Gino recebeu um pedido especial. Pepperoni com queijo duplo para a menina do vestido de noiva.

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