Neverland / Terra do Nunca

“I don’t want to grow up”, said my niece Ciara, 5 years old, in tears the last time we were leaving Dublin. I am sure she felt a lot better about the future once I gave her that Percy Pig, but I don’t blame her: why would anyone want to deal with a world of mortgages, driving tests and heartbreak?

And it is not like no one has ever felt that way before. Ponce de León must still be roaming around the world looking for his fountain of youth, now probably at a Venezuelan beauty pageant. But, so far, no boy in green tights has arrived flying through by bedroom window to take me away – which would be a bit creepy in so many ways. Refusing to grow up is like trying to build a dam on a stream on a perfect summer’s day, the fireflies the only witnesses when the sun comes down and all the hard work is lost, as eventually everyone gets their feet wet. And then find themselves in adulthood up to their knees. To their eyes.

As it is impossible to stop the clock, I am looking for ways to dip my toes in that fresh water again just for a few minutes. No need for police phone booths, psychedelic tunnels or awkwardly winged Deloreans. So this is what I would like to do (Warning! Don’t put your list together on an Excel sheet, as there would be no way back from such a crime of adult boredom):

Take more than 20 minutes to choose a flavour at the ice cream parlour;

Still manage to think I would make a great astronaut someday;

Write (and post) postcards to my dog while I am on holidays;

Stay home on Saturday mornings to catch up on my cartoons while I still have my PJs on;

Feel my mum’s fingers running through my hair as I am falling asleep;

Think of dad as my hero even after seeing the man behind the cape;

Still smell the tobacco and the rose water even though my grandparents have been gone for so long.

And then I would find myself on the brown leather backseat of my dad’s white Ford Maverick with my best friends, melting lollies at hand and no seatbelt in sight, on our weekly trip to the playground on a sunny Sunday morning.

And then I wouldn’t have to follow the second star to the right, and straight on till morning.

*

Terra do Nunca

“Eu não quero crescer”, disse a minha sobrinha Ciara, de cinco anos, aos prantos na última vez em estávamos indo embora de Dublin. Tenho certeza que a perspectiva da menina em relação ao futuro melhorou muito depois da balinha que dei para ela, mas também não a culpo: por que alguém iria querer lidar com um mundo de financiamentos de casa própria, exames de carteira de habilitação e corações partidos?

E não é também como se ninguém nunca tivesse se sentido assim antes. Ponce de León ainda deve estar vagando pelo mundo em busca da fonte da juventude – agora provavelmente no concurso de Miss Venezuela. Mas, até agora, não recebi a visita de nenhum menino entrando pela janela do meu quarto, usando legging verde – o que seria ligeiramente assustador em tantos contextos diferentes. Recusar-se a crescer é como tentar construir uma pequena barragem em um riacho em um dia perfeito de verão, os vagalumes as únicas testemunhas quanto o sol se põe e todo aquele trabalho árduo vai literalmente por água abaixo, enquanto todo mundo finalmente molha os pés. E se encontram imersos em maturidade até os joelhos. Até os ossos.

Como é impossível fazer o relógio parar, estou procurando um jeito de molhar meu dedão do pé naquela água fresca de novo, nem que seja por alguns minutos. E sem necessidade de usar túneis psicodélicos, nem Deloreans e suas asas desajeitadas. Então, aqui está o que pretendo fazer (Cuidado! Não faça a sua lista em uma planilha de Excel, já que não há caminho de volta de um crime de chatice adulta desse teor):

Levar mais de 20 minutos para escolher um sabor na sorveteria;

Ainda achar que eu daria uma ótima astronauta um dia;

Escrever (e mandar) cartões postais para o meu cachorro quando eu sair de férias;

Ficar em casa de pijama aos sábados de manhã para me atualizar com os meus desenhos na TV;

Sentir minha mãe fazendo cafuné nos meus cabelos enquanto tento cair no sono;

Achar que meu pai é o meu herói mesmo depois de ver o homem por trás da capa;

Ainda sentir o cheiro de tabaco e perfume apesar dos meus avós já terem ido embora há tanto tempo.

E então eu estaria de volta no banco de trás de couro marrom do Maverick branco do meu pai com os meus melhores amigos, picolés derretendo até os cotovelos e nenhum cinto de segurança à vista, na nossa visita semanal ao parquinho em São Caetano, em uma manhã ensolarada de domingo.

E então eu não teria que seguir a segunda estrela à direita, e então direito, até o amanhecer.

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The guest / O hóspede

When you first checked-in, you were the perfect guest: discreet, the kind that makes his bed even though there is room service, almost imperceptible. You hardly unpacked, as if you were trying to take as little room as possible. Of course there were some fundamental changes on our menu – the more-spinach-and-less/zero-wine routine can be a bit of a pain –, but you kept quiet at meal times, and didn’t seem to mind going to bed early. I bet you would have hung up a “don’t disturb” sign on the door, if that were possible.

Maybe you knew that, even though silent, our deal was on: the longer you stayed, the roomier your en-suite would get, and that was enough. As you know very well now, the facilities are definitely not the most modern. There is no Wi-Fi or Netflix, and you might stumble on a bidet or an avocado green sink, or another archaeological relic from the 70’s, but everything has been checked and everything works, at least so far. It’s not like this place has a brochure full of eye-catching pictures to attract tourists, and you couldn’t have known in advance, but I am still so happy you have decided to stay with us.

There is no booklet displaying the main attractions and interesting activities in the area, but our service does include concierge advice on directions and options for you to continue on your long journey. In similar places, people find the concierges are a bunch of know-it-alls that won’t let you make your own decisions and overwhelm the special guest with so much advice and expectation the he finds himself even more disoriented than at the beginning of the trip. Some of them even insist on taking the guest’s hand to cross the street for the first time, for crying out loud – and although that could be necessary, we pride ourselves in the fact that we will not do that to you. Ever. But, then, again, that is what every hotel staff says.

And when the time comes, when your room is too small and you are feeling too wriggly and eager to finally stretch your legs and explore, I would like to ask only one thing of you: in the same way when you checked-in, please take your time to leave. I know they have given you (and us, too) a check-out time, but there is no need to rush. Pack your bags slowly, look methodically to see if you haven’t forgotten a favourite memory under the bed or maybe an important lesson in the wardrobe – or your toothbrush. And, when you are out there in the big wild world, please do not forget about us. Don’t hesitate to call and ask for directions, or just stop by for a cup of coffee. I would like to ask just one small favour, though: please refrain from posting any reviews or stars on TripAdvisor, as the management is still not sure we should take more guests in the future.

And, when you do check out, please feel very welcome, son. Mummy and daddy are looking forward to seeing you.

“I will hold you for as long as you like

I’ll love you for the rest of my life.”

(Paul McCartney – Calico Skies)

*

O hóspede

Você foi o hóspede perfeito ao fazer o check-in: discreto, do tipo que arruma a própria cama mesmo quando há camareira, uma presença quase imperceptível. Você mal desarrumou as malas, como se estivesse tentando ocupar o mínimo de espaço possível. É claro que tivemos que fazer algumas alterações no menu – a combinação de mais espinafre com menos vinho, ou vinho nenhum, não é para todos os gostos –, mas você permaneceu quieto às refeições, e não parecia se importar em ir dormir cedo. Aposto que você teria pendurado uma plaquinha de “Não perturbe” à porta, se fosse possível.

Talvez você já soubesse que, embora silencioso, nosso acordo já havia sido selado: quanto mais tempo você ficasse por aqui, maior sua suíte se tornaria, e aquilo era o suficiente. Como você já sabe muito bem agora, as instalações não são das mais modernas. Não há Wi-Fi, nem Netflix, e talvez você tropece de vez em quando em um bidê ou uma pia verde abacate, ou outra relíquia dos anos 70; mas tudo foi checado e tudo funciona, pelo menos por enquanto. Esse lugar também não tem folhetos recheados de fotos atraentes para atrair turistas, e você não tinha como saber como seria antes de chegar aqui, mas mesmo assim fico muito feliz por você ter decidido ficar com a gente.

Também não temos um guia com as principais atrações e atividades na área, mas a nossa estadia inclui serviço de concierge, que pode fornecer orientação e opções para que você continue sua longa jornada. Em outros locais similares, as pessoas acham que os concierges são um bando de sabe-tudos que não deixam o hóspede tomar as suas próprias decisões e o inundam com tantos conselhos e expectativas que o pobre se encontra ainda mais desorientado que no começo da viagem. Alguns deles até mesmo insistem em levar o hóspede pela mão na hora de atravessar a rua, pelo amor de Deus – e, apesar de isso talvez se provar necessário, temos orgulho em dizer que não faremos isso com você. Nunca. Mas, pensando bem, todo staff de hotel diz a mesmíssima coisa.

E quanto a hora chegar, e seu quarto ficar pequeno demais, e você ficar impaciente demais e animado para esticar as pernas e sair para explorar, eu só gostaria de pedir uma coisa: da mesma maneira quando você fez o check-in, por favor não se apresse para ir embora. Eu sei que eles deram a você (e para nós também) um horário para fechar a diária, mas não há motivo para pressa. Arrume suas malas com calma, olhe metodicamente para ver se não esqueceu uma lembrança favorita debaixo da cama, ou talvez uma lição importante no guarda-roupa – ou a sua escova de dente. E, quando você estiver por aí nesse mundão, por favor, não se esqueça de nós. Não pense duas vezes se quiser voltar e pedir mais informações sobre o caminho, ou só para tomar um café. Eu só queria pedir um favorzinho: por favor, não poste nenhum comentário ou estrelas no TripAdvisor, já que a gerência ainda não sabe se vai receber mais hóspedes no futuro.

E, quando finalmente fizer o check-out, sinta-se muito bem-vindo, filho. Mamãe e papai não veem a hora de conhecer você.

“I will hold you for as long as you like

I’ll love you for the rest of my life.”

(Paul McCartney – Calico Skies)