Home / Casa

My home is not the house or the city where I spent most of my childhood. In a silent agreement that must have been sealed on a genetic level, tiny DNA strands shaking hands, I borrow my mum’s hometown, a sleepy village encrusted in the mountains of the Brazilian countryside, to be my own.

On our endless car journeys to visit my grandparents on the weekends or school holidays, the adventure already started on the road: the dark mountains were sleeping giants, the tip of their noses touching the Southern Cross; the fields were covered by orange trees and then by coffee plantations, as if they knew their right order on the breakfast menu; the road signs pointed to strange cities maybe bathed in sunlight and gold and jewels in my imagination, but most probably just covered in dust. But I would take dust any day over the greyness of the city we had left behind.

A road trip is not an option anymore, but one of the advantages of being genetically wired to my home is that I don’t have to board a plane to visit it again. My home and I have a deal. I may not get to choose when I go back, but on the other hand, my home appears before me with the novelty of a sunny butterfly on a cold winter’s day. My ticket is a cattle guard, a crooked branch on a tree, a worn-off gate forgotten on a fence or a wooden bridge over a stream.

And then the mountains of County Down turn into the sea of hills of my childhood, and the basket of eggs gives room to guava trees, sugarcane and waterfalls. The potato bread morphs into tapioca flour and migrates from the smoky griddle to the clay wood burning stove in my grandma’s red tiled kitchen. The watery but well-intentioned coffee mans up and rises dark and strong from the kettle to greet me, seated across the table in my flannel pyjamas. My favourite book is by my side.

My grandpa has just arrived from the bakery with biscuits still hot from the oven, which are quickly added to the carb cornucopia on the kitchen table. His next passenger is already waiting for a ride in his taxi. My grandma and my mum come into the kitchen, the nail varnish still drying out from the manicure session next door. My sister and my dad are waiting for me to finally change clothes and go to the church square, on a stroll full of ice cream potential. Chico, the parrot, yells the latest curse word he had learned from my grandma that week.

The sun comes through the window and I take a sip of my coffee. I am home.

*

Casa

Meu lar não é a casa, nem a cidade onde passei a maior parte da minha infância. Em um acordo silencioso que deve ter sido selado em nível genético, os filamentos minúsculos de DNA apertando as mãos, eu pego emprestado a terra natal da minha mãe, uma cidadezinha pacata encrustada nas montanhas de Minas, como se fosse minha.

Nas nossas viagens de carro intermináveis para visitar nossos avós nos finais de semana ou nas férias da escola, a aventura já começava na estrada: as montanhas escuras eram gigantes tirando uma soneca, a ponta dos seus narizes enormes tocando o Cruzeiro do Sul; os campos eram cobertos por pés de laranja e então de plantações de café, como se até eles soubessem sua ordem certinha no café da manhã; as placas apontavam em direção a cidades estranhas talvez banhadas de sol e ouro e pedras preciosas na minha imaginação, mas provavelmente cobertas de poeira mesmo. Mas, pensando bem, eu escolheria a poeira mil vezes em vez do cinza da cidade que a gente deixava para trás.

Ir para lá carro já não é mais uma opção, mas uma das vantagens de ser geneticamente ligada à minha casa é que eu nem preciso entrar num avião para fazer uma visita. Meu lar e eu temos um trato. Tudo bem que eu não posso escolher exatamente quando quero voltar mas, por outro lado, meu lar aparece para mim  com a novidade de uma borboleta ensolarada em um dia frio de inverno. Minha passagem é um mata-burro, um galho retorcido de árvore, uma porteira gasta e esquecida na cerca, uma ponte de madeira sobre um riacho.

E então as montanhas de County Down se transformam nos mares de morros da minha infância, e o verde daqui dá espaço a goiabeiras, canaviais e cachoeiras. O pão de batata irlandês vira pão de queijo e migra da panela de ferro que eles usam nas lareiras daqui para o fogão a lenha da cozinha de piso vermelho da minha avó. O café meio aguado mais bem-intencionado encontra coragem e sai escuro e forte da cafeteira para dar bom-dia para mim, sentada do outro lado da mesa, ainda no meu pijama de flanela. Meu livro favorito está ao meu lado.

Meu avô acabou de chegar da padaria com biscoitos de polvilho ainda quentinhos do forno, que se juntam rapidamente à cornucópia de carboidratos sobre a mesa da cozinha. Seu próximo passageiro já está à espera dele no táxi. Minha avó e minha mãe entram na cozinha, o esmalte ainda secando da sessão-manicure na vizinha. Minha irmã e meu pai estão esperando até que eu finalmente troque de roupa para irmos para a pracinha da igreja, em um passeio repleto de potencial sorvetístico. Chico, o papagaio, berra o palavrão mais recente que aprendeu naquela semana com a minha avó.

O sol entra pela janela e tomo um gole de café. E estou em casa.

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Growing pains / Crescer é um porre

I was waiting at the door, looking forward to finally go home and get a break after a full day, covered in paint and eager for some chocolate pudding. My ride was supposed to pick me up at three o’clock on the dot, but there was no sign of it yet. I was already cursing the gods for letting me get stuck there and almost losing hope, but then he came. His arms and legs were covered in as many colours as my own, but he arrived bearing a triumphant smile on his face and a bunch of flowers in his hands. He gave me the bouquet and he said that he loved me. Well, his dad said he did. I accepted the flowers with a polite smile and did the only sensible at that moment: stomped on them. My mum wished she had arrived even later to pick me up. I was five.

With that kind of record, it is amazing I even got to have a first kiss almost ten years later. It is not like I wasn’t interested in boys, but there seemed to be so much more to the world than getting all dolled up and sighing at the sight of smelly boys playing soccer. When my class went on a day trip to an amusement park, I couldn’t believe the older guy from the 9th grade came to talk to me. We had different schedules at school, which turned him into an exotic and almost mythical creature, a winged unicorn who managed to wake up early enough to go (or fly) to class. Yes, his kiss made my head spin, but loopings aside, I would gladly have gone for an extra ride on the rollercoaster instead.

After what became known as the “flower-stomping incident”, my mum only got more anxious about her dream of filling each extra seat at her dining table for six.  And when she heard her tapestry teacher had a son who was a total hunk, nothing could stop her. She made him set up a date to come over to meet me – and almost knitted him a thank you card. I was 14, he was 21, a match made in heaven maybe in Alabama in the 30’s, but now it was too late and my mum was on full Jane Austen mode.

When the much awaited day arrived, he didn’t bring me flowers (news had travelled fast in the past 9 years), but was kind enough to say hi to my family – that is, until a very quiet hurricane swept the house and made everybody disappear. Everyone was gone, except for the cat. Dorothy, you’re not in Kansas anymore.

While the guy went on and on about the incredible grown-up world and its mind-blowing activities, such as driving around in real cars and listening to dodgy dance music, I held my cat on my lap, as a little kid who won’t let go of her teddy bear. The feline had just been upgraded to a mix of hairy force field and moral police. That cat should have been proud to be a poster-cat for innocence. That cat should have relished the importance of such a cause. That cat should have eaten less for dinner.

That cat barfed on my date.

“You have to watch what she eats”, he said, and finally left.

I made a sad face to my mum, but almost high-fived the much relieved kitty. It wasn’t anybody’s fault. I guess I just wasn’t ready to grow up.

*

Crescer é um porre

Eu estava esperando no portão. Não via a hora de ir para a casa descansar um pouco depois de um dia de cão, coberta de tinta e morta de vontade de comer um Danette. Minha carona disse que ia me pegar às três da tarde em ponto, mas até ali, nada. Eu já estava xingando os deuses por me deixarem plantada ali e quase perdendo as esperanças, mas então ele veio. Seus braços e pernas estavam cobertos por tantas cores quanto os meus, mas ele carregava um sorriso triunfante nos lábios e um buquê de flores nas mãos. Ele me deu o buquê e disse que me amava. Bom, na verdade, o pai dele me disse que ele estava apaixonado por mim. Aceitei as flores com um sorriso educado e fiz a única coisa decente naquela situação: pisoteei o buquê. Naquela hora, minha mãe queria mais era ter chegado ainda mais tarde para me buscar. Eu tinha cinco anos.

Com esse tipo de histórico, é incrível que eu tenha conseguido beijar um cara pela primeira vez quase dez anos depois. Não é que não estivesse interessada nos meninos, mas parecia que o mundo era muito mais do que se embonecar toda e ficar suspirando ao ver uns moleques suados jogando bola. Mas, quando minha escola foi em uma excursão ao Playcenter, eu nem acreditei quando o menino da oitava série veio falar comigo.  Eu estudava à tarde, ele, pela manhã, o que fazia do cara uma criatura exótica, quase mítica, praticamente um unicórnio alado que conseguia acordar cedo o suficiente para ir (ou voar) para a aula. Tudo bem, o beijo dele fez a minha cabeça girar mas, loopings à parte, eu bem que preferiria ter dado mais uma volta na montanha-russa em vez de ficar com ele.

Depois do que ficou conhecido como “o incidente do buquê”, minha mãe ficou cada mais vez ansiosa, e louca para tornar realidade seu sonho de preencher os lugares na mesa de jantar para oito pessoas. E quando ela ouviu falar que sua professora de arraiolo tinha um filho que era “um gato”, aí é que ninguém a segurava mesmo. Ela fez o cara marcar um dia para vir à nossa casa me ver – e quase tricotou um cartão de agradecimento para ele. Eu tinha 14 anos, ele, 21 – um par perfeito talvez no Alabama dos anos 30, mas agora era tarde demais e minha mãe já estava se achando a Jane Austen.

Quando o dia tão aguardado finalmente chegou, ele não trouxe flores para mim (pelo jeito a notícia tinha se espalhado naqueles últimos nove anos), mas foi gentil o bastante para cumprimentar a minha família – isso é, até um furacão silencioso passar pela casa e fazer todo mundo desparecer. Todo mundo sumiu, exceto o nosso gatinho de estimação. “Dorothy, você não está mais no Kansas.”

Enquanto o cara não parava de falar sobre o incrível mundo dos adultos e atividades ainda mais animais, tipo dirigir pela Avenida Goiás ouvindo dance music de qualidade duvidosa, fiquei segurando o gatinho no colo, como uma menina que não quer largar do ursinho de pelúcia. O felino tinha acabado de receber um upgrade e virado uma mistura de campo de força peludo e polícia da moral e bons costumes. O gato deveria ter ficado orgulhoso de ser um gato-propaganda da inocência. O gato deveria ter saboreado a importância daquela causa. O gato deveria ter comido menos na janta.

O gato vomitou no cara.

– É bom ver o que esse gato come, né? – ele disse, e finalmente foi embora.

Fiz cara de triste para a minha mãe, mas quase pedi um high-five para o gatinho, nós dois aliviados. Não tinha sido culpa de ninguém. É que eu ainda não estava pronta para crescer.