The circle / O círculo

Come, my dear friend. Don’t be afraid. You don’t need a warning in a dream or a baptism of blood to join our circle. Just a story to tell.

You may hold hands if you wish.

You may also save mandrakes, bezoars and rosemary for another full moon, for this is not an incantation. We are gathered here today to summon them to life.

The order is not important, as words are not greedy. They have to power to sense who needs to come out first. A woman who got married on a Thursday and never played the piano again. A mother eager to close her eyes after the funeral of her only daughter.  A grandpa waiting to marmalade toast with his grandson, for childhood ends on a blink of a paragraph. They all need to speak, and now. So read.

They had a taste of life on the paper, but only feel truly alive when rolling off the tongue.  Many dread waking up from their dream of cellulose by our bittersweet kiss, being forced to go through all that again. But there is nothing like the feel of ink flowing through your veins.

Even if only for a few minutes, they leave dusty drawers and expertly locked chests tucked away somewhere in the mind and live among us. Happy characters pray every detail will play out itself exactly like the last time. The less fortunate ones hope fate materialises, even if in the shape of a comma, and takes pity on their sad endings.

They are here until words are no longer necessary, until all that needed to be said has been told. They can sense the thoughtfully carved sentences, the climax that will make their journey be remembered. And then it comes. Looks don’t mean a thing. It is so tiny one could barely notice it and its great power to send them back. They want to linger in that special moment when no one else’s story mattered, but only theirs. But it is too late now. It’s here. Full stop.

*

O círculo

Venha, meu amigo. Não tenha medo. Você não precisa de um aviso vindo num sonho, nem de um batismo de sangue para se juntar ao nosso círculo. Apenas uma história para contar.

Vocês podem dar as mãos, se quiserem.

Você também pode guardar mandrágoras, bezoares e o alecrim para outra lua cheia, pois isso aqui não é um encantamento. Estamos reunidos para trazê-los de volta à vida.

A ordem não importa, já que palavras não são gananciosas. Elas têm o poder de sentir quem precisa vir primeiro. Uma mulher que se casou numa quinta-feira e nunca mais tocou piano. Uma mãe ansiosa para fechar os olhos depois do enterro da única filha. Um avô esperando para passar geleia na torrada para o neto, já que a infância pode acabar num piscar de parágrafo. Todos eles precisam falar, e tem que ser agora. Então, leia.

Eles já sentiram o gosto da vida no papel, mas só se sentem realmente vivos ao escorregarem pela nossa língua. Muitos temem acordar de seu sonho de celulose com o nosso beijo agridoce e serem forçados a passar por tudo aquilo de novo. Mas não há nada como a sensação da tinta pulsando nas veias.

Mesmo que apenas por alguns minutos, eles deixam gavetas empoeiradas e baús trancados em algum lugar da mente, e vivem entre nós. Personagens felizes rezam para que cada detalhe seja reproduzido exatamente como da última vez. Os menos afortunados pedem que a esperança se materialize, mesmo que em forma de vírgula, e se compadeça de seus finais infelizes.

Os personagens ficam entre nós até que as palavras não são mais necessárias, até que tudo que tinha que ser contado já foi dito. Eles conseguem sentir as frases cuidadosamente entalhadas, o clímax que tornará suas jornadas inesquecíveis. E então ele vem. Aparência não é nada. Ele é tão pequeno que passa quase despercebido, assim como seu grande poder de mandar todos de volta. Eles querem ficar para sempre naquele momento tão especial, quando a história de mais ninguém importava, apenas a deles. Mas agora é tarde demais. Ele chegou. Ponto final.

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